Conversas que curam: como discutir de forma construtiva

As pessoas são muito diferentes umas das outras. Muitas das pessoas importantes para nós têm formas diferentes de pensar, de comunicar, de reagir, de decidir, de lidar com o conflito, de lidar com o desafio, de mostrar preocupações, de perseguir os seus objetivos… E ao lembrarmos-nos disto percebemos porque é que é tão fácil surgirem desentendimentos, discussões ou conflitos, mesmo com as pessoas que nos são mais próximas e que mais amamos.

Perante a palavra conflito, é comum que as pessoas a associem a algo negativo, que gera discórdia, afastamento e sentimentos menos agradáveis. No entanto, nem todos os conflitos são prejudiciais. Na verdade, alguns podem mesmo trazer mudanças positivas, crescimento pessoal, descoberta de novas soluções e melhorias nos relacionamentos. Os conflitos são inevitáveis e até saudáveis, fazem parte das interações e das relações humanas e é a forma como são geridos e resolvidos que determina os seus resultados e impactos. Em vez de os evitar, é importante aprender a lidar com os conflitos de forma construtiva.

Assim, tendo em conta uma relação de casal, não é expectável que sejam imunes e ausentes de conflitos, tensões, divergências. Todos os casais discutem! Há casais que têm um elevado grau de conflito, que se deparam com grandes divergências (quer nas pequenas, quer nas grandes questões), que podem até ter um estilo de comunicação mais “aceso”, mas não é isto que vai ditar uma eventual rutura ou separação. Assim como há casais que, aparentemente, estão de acordo em tudo, raramente discutem, parecem viver numa sintonia e harmonia “ensurdecedoras”. E quando nos deparamos com um conflito, normalmente pensamos e pressionamos-nos para encontrar uma solução. Mas e quando não há uma solução possível? Na verdade, muitos dos problemas que geram conflito num casal não têm uma solução e acabam por permanecer no tempo. Por exemplo, questões relacionadas com incompatibilidades com as famílias de origem um do outro, desejo de ter ou não ter (mais) filhos, características individuais mais vincadas, por vezes provenientes da própria história de vida de cada um, são algumas situações que podem gerar problemas e conflitos no casal, não sendo possível encontrar uma resolução consensual (uma situação “ganha-ganha”, pois um dos elementos do casal “ganha” e o outro “perde”). Nestas situações, é então fundamental gerir o conflito/problema, e não resolvê-lo (porque não tem solução).

Alguns dos sinais que indicam que estamos a gerir uma discussão ou conflito de forma negativa, não funcional, e tendencialmente destrutiva são:

  • Interações e sentimentos predominantemente negativos, contribuindo para um aumento da escalada de tensão e para a personificação do problema, adotando posturas de acusação e menos centradas no problema. Estas posturas levam um ou ambos os membros do casal a apresentar, por exemplo, elevação no tom de voz (e outras ativações fisiológicas, como a aceleração do batimento cardíaco), desrespeito, desconsideração pelo outro, falta de compreensão das necessidades e sentimentos do outro, falta de empatia, desenvolvendo uma visão negativa do outro e do próprio relacionamento.
  • Elevado criticismo e desvalorização do outro, realçando apenas aquilo que o outro tem de negativo, através por exemplo de insultos, críticas pessoais, ataques à dignidade, o que proporciona uma perspetiva redutora e negativa do outro, em vez de se forcar na resolução do problema.
  • Atitude defensiva, negando qualquer tipo de responsabilidade na situação e centrando culpas no outro.
  • Desprezo, adotando uma postura de superioridade ou de menosprezo em relação ao outro (sarcasmo, insultos, inferiorizar o outro).
  • Desistência ou desligamento emocional, na medida em que se verifica ausência de qualquer tipo de afeto positivo durante o conflito, ignorando as tentativas de aproximação e de conexão emocional apresentadas pelo outro (“virar costas”).
  • Incapacidade para travar a escalada de tensão, apresentando dificuldade na regulação da impulsividade/reatividade, quer em si próprio, quer no outro.
  • Incapacidade para aceitar a influência do outro.

É importante discutir “bem”, com qualidade, de maneira que o conflito tenha um carácter construtivo e funcional, ou seja, que proporcione crescimento individual e/ou em casal, que permita evoluir e não destruir o casal.

Os casais mais felizes e funcionais abordam os problemas de forma calma e respeitosa e têm em conta a dimensão emocional, não ignorando as emoções mais difíceis e dolorosas.

Perante questões difíceis ou problemas, algumas estratégias que ajudam os casais a discutir com qualidade e de forma mais construtiva são:

  • Escolher o momento e o local adequados para abordar o assunto, assegurando que ambos se sentem disponíveis, seguros e à vontade para expressar e explorar as suas emoções mais profundas, as suas necessidades e preocupações, com calma e sem medo de críticas ou julgamentos.
  • Comunicar de forma clara e assertiva, falando na primeira pessoa (“eu sinto…”, “eu preciso de…”), transmitindo assim o que sente e quais as suas necessidades, evitando um tom de crítica e de julgamento em relação ao outro.
  • Escutar o outro e validar os seus sentimentos, adotando uma postura de “bom ouvinte” (mesmo que discorde) e deixando de lado a sua própria agenda (as suas necessidades, as suas emoções), verificando se está a receber bem a mensagem que lhe está a ser transmitida, por exemplo, reformulando aquilo que ouviu e perguntando se foi isso (preocupações, medos, anseios) que o outro quis transmitir.
  • Deixar-se influenciar pelo outro, evitando a rigidez (em que cada um fica na sua posição e mantém os mesmos argumentos) e mantendo o respeito um pelo outro, aceitando as diferenças de cada um e confiando que cada um quer o melhor para o outro, separando o problema da essência da pessoa.
  • Prevenir a negatividade na interação, evitando a escalada de tensão, procurando comunicar de forma consistentemente positiva.
  • Ter a capacidade de reparar a interação, diminuindo a escalada de tensão, por exemplo pedindo desculpa por algo que tenha dito de forma menos adequada, reformulando, procurando regular-se emocionalmente para que possam tentar novamente discutir o problema e lembrando o verdadeiro sentido da discussão (que não é para magoar o outro).

As discussões e os problemas no casal, sendo geridas de forma mais construtiva, proporcionam maior autoconhecimento (individual e do casal – sobre as suas preocupações, os seus medos, os seus sonhos, os seus valores), podendo surgir novos entendimentos, novas estratégias para gerir situações mais difíceis e, acima de tudo, maior intimidade e proximidade. Isto é possível, não só desenvolvendo afetos positivos durante os conflitos, mas também fora deles, na relação em geral. Na verdade, tal como defende o psicólogo John Gottman, é fundamental que o casal vá contribuindo para uma “poupança emocional” para que, em momentos mais difíceis, possa recorrer às suas reservas, sendo de evitar que o seu saldo de afetos positivos fique “a zeros”.

Concluindo, é bom discutir, mas com qualidade! E a terapia de casal pode ser uma ferramenta valiosa para superar desafios e fortalecer o vínculo, sendo um tempo e um espaço do e para o casal, onde podem ser discutidas e trabalhadas estratégias que contribuam para o seu crescimento. Finalmente, há um novo espaço para uma “Pausa para Sentir”, onde os casais poderão usufruir de acompanhamento especializado e personalizado, num ambiente acolhedor e com uma equipa de profissionais dedicada! Venham conhecer-nos!

 

(Texto escrito para o Blog do “Pausa para Sentir”, publicado a 25 Maio 2024 – https://www.pausaparasentir.pt/blog/conversas-que-curam-como-discutir-de-forma-construtiva)

Ser ou não ser vulnerável?

Todos os dias trabalho com vulnerabilidade; com a minha e com a das pessoas que me procuram profissionalmente.

Tal como escreveu Carlos Tê e cantou Rui Veloso, “A tua pequena dor / Quase nem se quer te dói / É só um ligeiro ardor / Que não mata / Mas que mói.”

Quantas vezes não vamos olhando para as nossas “dores” desta forma? “É uma dor pequenina / Quase como se não fosse”… E vamos interiorizando que não é nada de especial e que há tanta gente com problemas piores… E assim vamos bloqueando as nossas emoções e guardando a nossa “dor” só para nós – e a música continua: “Não exponhas essa dor / É preciosa é só tua / Não a mostres tem pudor / É um lado oculto da lua.”

Muitas vezes partilham comigo que não gostam de mostrar vulnerabilidade, ou porque é um sinal de fraqueza, ou porque se sentem demasiado expostos. A vulnerabilidade é mesmo isto, aquilo que de mais puro temos em nós, as nossas emoções, os nossos medos, as nossas preocupações, os nossos desejos, os nossos sonhos. Estamos vulneráveis quando estamos despojados de todas as nossas defesas e nos abrimos completamente aos outros e a nós mesmos. E é preciso coragem para nos encararmos a nós próprios e também aos outros e às circunstâncias que a vida nos traz. Isto é sinal de fraqueza?

Ser vulnerável não é ser fraco, é ser puro e honesto comigo mesmo e com os outros. A melhor forma de lidarmos com a vulnerabilidade é percebermos e conhecermos o lugar onde estamos emocionalmente, o que estamos realmente a sentir e para onde queremos ir. Como as emoções são informação, elas dizem-nos o que é importante para nós e do que é que precisamos. A tristeza procura consolo/conforto quando há uma perda. O medo/ansiedade procura segurança quando há perigo. A raiva procura segurança (estabelecimento de limites) ou assertividade quando a pessoa se sente atacada ou posta em causa. A culpa procura reparar os erros/danos ou pedir desculpa quando há alguém magoado.

Ao sermos vulneráveis escolhemos a verdade, escolhemos olhar no fundo do ser (de nós próprios e dos outros), escolhemos relações de proximidade e de confiança.

Eu sou a mãe… E quando os filhos vão para casa do pai?

Após uma separação/divórcio existe uma fase de adaptação e de (re)descoberta para todos os elementos envolvidos (pais e filhos).

Muitas mães partilham a sua dificuldade em estar sozinhas, sem os filhos, quando estes ficam em casa do pai. Nessas alturas, principalmente numa fase inicial pós-divórcio, experimentam sentimentos de solidão, frustração, revolta, injustiça, entre outros, acabando por não saber passar esse tempo sozinhas (tempo esse que muitas vezes parece interminável…), permanecendo num grande sofrimento.

Nessas alturas em que as mães estão sem os filhos, e de forma a poderem passar melhor esse tempo:

1. Evitem o autocriticismo e a auto-culpabilização: a separação/divórcio não é, por si só, traumatizante para as crianças. Aquilo que pode marcar mais negativamente o desenvolvimento e o bem-estar das crianças são as dinâmicas que existiam antes do divórcio e após o divórcio, sendo fundamental que, mesmo separados, os pais consigam manter uma relação cordial e de cooperação. O mais importante é os filhos sentirem os pais bem e disponíveis para eles.

2. Aprendam a gostar e a aproveitar o “me time: há muitas coisas que nunca teriam a oportunidade de fazer com a presença dos filhos. Façam planos, identifiquem coisas que gostariam (e precisam) de fazer e que podem concretizá-las no tempo em que os filhos não estão.

3. Não se culpabilizem, gostar do “me time” não é sinónimo de egoísmo: só porque gostam de estar sem os seus filhos e conseguem ser felizes nesses momentos, não significa que sejam menos boas mães. É muito importante que as mães se sintam bem, que façam o que gostam e se sintam realizadas. Só assim poderão ter disponibilidade psicológica e emocional para lidar com os desafios da educação dos filhos e de uma coparentalidade saudável. E quando os filhos veem os pais felizes, eles próprios são mais felizes e adaptados.

4. Sejam flexíveis na gestão de agendas: por vezes surgem imprevistos ou situações/oportunidades de última hora, pelo que quando o pai pede para que a mãe fique com os filhos, mesmo não sendo “a sua vez”, sejam flexíveis. Assim, quando for a vez das mães para pedir essa alteração, poderão ter mais facilmente essa disponibilidade por parte dos pais (ou não… mas nesses momentos há que lembrar que é o interesse e o bem-estar das crianças que deve falar mais alto, além de que nada deve impedir de ter a atitude certa).

5. Aproveitem o tempo em que têm os filhos em casa: juntos ou separados, há pais que têm pouco tempo para estar com os filhos (por razões profissionais, por exemplo). O mais importante é aproveitar o tempo que têm com eles, em vez de se lamentarem e de ficarem a antecipar a ansiedade e o sofrimento que poderão sentir quando forem para casa do pai. Além disso, as relações afetivas próximas e positivas entre pais e filhos constroem-se numa base diária, através das rotinas e das mais pequenas coisas, pelo que nunca desperdicem a oportunidade de proporcionar experiências e memórias positivas aos filhos.

6. Lembrem-se que o pai é importante para os filhos e que, juntos, podem trabalhar em equipa: independentemente do tipo de relação e de proximidade que os filhos tinham com o pai antes da separação/divórcio, todos os filhos merecem e precisam de ter o carinho e o acompanhamento de ambos os pais. Quanto melhor os filhos estiverem com o pai, mais descansada e confiante poderá ficar a mãe, podendo também aproveitar melhor o seu tempo e investir em si mesma, no seu bem-estar.