Maria e José, exemplo de confiança e compromisso

Porque o amor prepara o caminho e o caminho faz-se de amor.

O amor de Maria e José é um testemunho silencioso de confiança, entrega e construção conjunta. Não foi um amor idealizado, mas sim vivido na vulnerabilidade, na coragem de acolher o inesperado e na fidelidade a um projeto em comum.

Este tempo de preparação para o Natal é um convite a desacelerar, a olhar para dentro e para o outro, a cultivar esperança e presença. Para os casais, crentes ou não, pode ser um momento para renovar compromissos: escutar mais, cuidar melhor, ir ao encontro do outro.

Maria e José são mais do que figuras de um presépio. São um casal que nos mostra, com simplicidade, que o amor verdadeiro se constrói sobre dois pilares fundamentais: a confiança e o compromisso.

Confiança, porque acreditaram um no outro mesmo diante do inesperado. A confiança existe quando a pessoa sabe que o outro pensa e age de forma a maximizar os seus interesses, beneficiando-o cada vez mais, não ficando apenas focado nos seus próprios interesses e benefícios. Não é ausência de conflito, é saber que, mesmo nas divergências, o outro está do nosso lado. É quando o outro nos defende numa conversa difícil, nos protege num momento de fragilidade, nos escuta sem nos criticar. José confiou em Maria, Maria confiou em José, e juntos confiaram que o caminho, ainda que incerto, seria possível se partilhado.

Compromisso, porque permaneceram fiéis ao projeto comum, mesmo sem garantias, mesmo sem compreenderem tudo. O compromisso não foi apenas uma promessa, foi presença, foi estar, cuidar, apoiar. É quando, mesmo cansados, decidimos preparar o jantar juntos. É quando, mesmo magoados, escolhemos conversar em vez de nos calarmos e afastarmos. É quando criamos um porto seguro emocional onde o outro pode pousar sem medo. O compromisso existe quando se acredita que a relação é para toda a vida, que ambos cuidarão dela, aceitando e agradecendo o bom e o mau, construindo, juntos, uma vida com significado partilhado.

Sem confiança não há segurança; e sem compromisso não há continuidade. Maria e José encarnam esta verdade: o amor prepara o caminho porque se apoia na confiança, e o caminho faz-se de amor porque se sustenta no compromisso.

O Advento é também este convite: preparar, esperar, acreditar. Para os casais, crentes ou não, é um tempo de reencontro com o essencial. Um tempo para cultivar confiança: escutando, acolhendo, respeitando, dando espaço ao outro para ser; e para cultivar compromisso: escolhendo estar, escolhendo cuidar, escolhendo permanecer, mesmo quando seria mais fácil fugir ou desistir.

Podemos olhar para o presépio como uma metáfora para a vida a dois: não é perfeito, não está acabado, mas sim disponível. Disponível para acolher o que ainda não sabemos e o que ainda não vivemos. Disponível para fazer do amor um caminho e do caminho um lugar onde o amor acontece e se constrói.

Reflexão a dois para este tempo de Advento:

  1. Como está a nossa confiança? Sentimo-nos seguros um com o outro? Sentimos que somos prioridade emocional na vida do outro?
  2. Estamos a honrar o nosso compromisso? Estamos a escolher estar, mesmo quando é difícil? Ou temos deixado que a rotina nos afaste?
  3. Temos tido tempo para partilhar? Há sentimentos, medos ou desejos que precisam de espaço para serem partilhados?
  4. Temos estado presentes um para o outro? Que pequenos gestos ou rituais podemos recuperar?
  5. Estamos a preparar o caminho ou apenas a sobreviver ao percurso? De que forma podemos intencionalizar o nosso tempo juntos e não nos deixar vencer pela rotina? O que podemos fazer para nos reencontrarmos e criarmos significado partilhado?

(imagem gerada com IA)

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Conhecem “Casais Robustos”?

Numa época em que as relações enfrentam ritmos acelerados e múltiplas exigências, o que distingue os casais emocionalmente resilientes?

Tal como nas fotografias que partilho (a primeira tirada pela Luísa Gonçalves da Costa e a segunda tirada por mim), há dias cheios de sol e outros de tempestade. Casais robustos são aqueles que, mesmo nos dias difíceis, não deixam que o mau tempo se instale para sempre no seu relacionamento. Enfrentam as tempestades lado a lado, com segurança e confiança de que o sol há de voltar (porque, na verdade, o “boletim meteorológico” da sua relação costuma apresentar céu limpo e brisa fresca).

Curiosamente, “Casais Robustos” também é o nome de uma aldeia do distrito de Santarém localizada numa encosta da Serra de Aire, pertencente à freguesia de Moitas Venda, Município de Alcanena e é parte integrante do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (para os mais curiosos, conheçam a sua origem em https://pt.wikipedia.org/wiki/Casais_Robustos). Ao passar por lá (só fotografámos à saída…), lembrei-me de casais robustos que conheço, pessoal e profissionalmente, e do esforço diário que fazem para o ser.

Mas afinal, o que é ser um casal robusto?

É ter um vínculo seguro, ou seja, aproveitar os momentos de bonança e, ao mesmo tempo, aguentar as tempestades sem abandonar o barco. É respeitar as diferenças, ficar um ao lado do outro mesmo quando há algum distanciamento e, acima de tudo, garantir que não se instala o desligamento emocional. Quando sentimos que o outro nos ama e nos valoriza, conseguimos atravessar qualquer tempestade.

No fundo, todos procuramos o mesmo: sentir-nos amados pelo que somos e reconhecidos pelo que fazemos. Quando isso falha, erguemos barreiras e recorremos a reações de autoproteção (afastamo-nos, reagimos em excesso ou ficamos sem ação) para não sentirmos rejeição ou abandono. No entanto, ao fecharmo-nos, cortamos precisamente a conexão de que mais precisamos.

Casais próximos e conectados emocionalmente são aqueles que compreendem os medos e as necessidades um do outro e procuram atendê-las. Dizer “preciso de atenção”, “preciso de espaço” ou “preciso de sentir segurança” é essencial e, quando estas necessidades são atendidas, o casal permanece próximo e seguro. Contrariamente, quando não são atendidas, surgem os comportamentos de protesto (como queixas, críticas, silêncios), que são sinais claros de pedidos não ouvidos. Esta ligação constrói-se no dia-a-dia, na forma como falam, como se comportam e até na forma como pensam um no outro.

Muitas das nossas necessidades emocionais de adultos têm origem na forma como fomos cuidados na infância. A teoria da vinculação mostra que, se crescemos a acreditar que emoções eram fraqueza ou que tínhamos de enfrentar dificuldades sozinhos, é provável que, em adultos, evitemos falar sobre o que sentimos. Fechamo-nos como defesa, mas o outro pode interpretar isso como desinteresse ou afastamento. Pelo contrário, quem cresceu a sentir-se ouvido e protegido aprende a procurar o outro em situações difíceis (para falar, partilhar, pedir presença). Porém, quando esta procura se torna intensa, o outro pode sentir-se invadido e acabar por recuar, deixando-nos com sentimentos de rejeição ou incompreensão.

Casais robustos não são casais sem conflitos. São aqueles que acreditam que, mesmo nos momentos difíceis, o outro vai estar lá para responder às suas necessidades. Mesmo que haja distância ou desencontros, confiam que vão reencontrar o caminho. E, quando falham, conseguem pedir desculpa, reparar e reconstruir a ligação. Ser casal robusto não é viver sem tempestades, mas ter a certeza de que, juntos, conseguem atravessá-las.

Em vez de comparar e cobrar, valorizar e agradecer!

Numa sociedade que valoriza métricas e produtividade, como é que o espírito de equipa e a gratidão podem transformar a vida em casal?

“Sou sempre eu que trata de tudo cá em casa!”

“Sou sempre eu a decidir e a tratar das férias!”

“Se não fosse o meu trabalho, não teríamos a vida que temos!”

“Tu nunca fazes…”

Estes desabafos são familiares? São questões como estas que muitas vezes surgem na consulta de casal, demonstrando algum descontentamento, frustração e/ou sobrecarga por sentirem que há algum tipo de desequilíbrio na distribuição de tarefas, sejam de cariz doméstico, financeiro ou de logística familiar. Muitos procuram uma divisão total em tudo: nas despesas, nas tarefas, na dedicação emocional. No entanto, os casais saudáveis e duradouros são aqueles que aceitam que cada fase da vida exige diferentes contributos de cada um e que reconhecem o valor do outro, sem inveja e sem vergonha. É muito fácil entrar numa contabilidade e ajuste de contas, tentando ao máximo dividir de igual forma tudo o que se faz ou tudo o que é necessário para a gestão e planeamento da família, como se pudéssemos medir dedicação com tabelas de “Excel”.

Ambos os elementos do casal têm igual responsabilidade na execução e no funcionamento familiar. Para muitos casais é essencial que haja uma divisão 50/50 de tudo o que são tarefas e responsabilidades e isso, dada a natureza diferente de cada um, nem sempre funciona de forma harmoniosa, pois há pessoas com mais habilidade, sensibilidade ou apetência para umas coisas e não tanto para outras. Assim, o sucesso familiar não reside numa “calculadora”, mas sim num verdadeiro trabalho de equipa! E, na verdade, e aludindo a uma comparação futebolística, quem é que faz mais ou quem é mais importante, o guarda-redes ou o ponta de lança? Ambos são importantes e, só juntos, conseguem vencer.

Reduzir a vida a contas ao milímetro (quem faz mais, quem dá mais, quem se sacrifica mais) só traz desgaste, cobranças e ressentimentos silenciosos. O segredo é que haja um verdadeiro trabalho de equipa, complementar, em que cada um põe ao serviço do outro e da família as suas competências e habilidades. O verdadeiro equilíbrio familiar encontra-se não na comparação, mas na cooperação e no reconhecimento mútuo. É importante que ambos valorizem competências, talentos e contributos um do outro, mesmo quando ocorrem em áreas muito diferentes, como a gestão financeira, o cuidado emocional, a organização doméstica ou a gestão educacional.

Ao longo do tempo, é natural que um assuma maior relevância ou destaque em determinadas situações, e outro noutras. Isso não diminui ninguém; mostra, sim, que a família é um todo feito de peças diferentes, mas todas imprescindíveis. O verdadeiro equilíbrio reside numa vivência feita de respeito, cumplicidade e generosidade, na capacidade de apoiar o outro, sem invejas nem listas de créditos, e no reconhecimento, sem esperar retorno imediato ou visibilidade pelo que se faz. Na verdade, a soma de todos os esforços é o que traz bem-estar, segurança e felicidade a toda a família.

A família, e o casal especificamente, não é palco de rivalidades nem de “contagens”, mas um espaço onde todos podem contribuir e, a seu tempo, ser protagonistas. O verdadeiro sucesso está em sentirem-se essenciais, não por aquilo que fazem individualmente ou exibem, mas pelo conforto e equilíbrio que constroem juntos, todos os dias.

Concluindo, forçar o equilíbrio matemático (ou seja, cada um faz exatamente metade) gera frequentemente ressentimentos, cobranças e silêncios. O que sustenta o casal é o compromisso, a disponibilidade para dar o melhor de si ao outro e à família, a dedicação diária e o saber reconhecer o outro e agradecer. Ninguém constrói sozinho (com os seus talentos individuais) um relacionamento de sucesso, são precisos dois, um sentido de “nós”, uma interdependência saudável e complementar, para que o casal seja feliz e cresça em conjunto! Em vez de comparar e cobrar, é preciso valorizar as diferenças e agradecer!

(texto escrito para o Blog do site do Pausa para Sentir)

(imagem Pixabay)

O meu propósito

 

Esta citação resume muito daquilo em que acredito. O que me move verdadeiramente é o impacto. É o compromisso de contribuir para uma sociedade em que os relacionamentos sejam mais saudáveis, mais gratificantes e mais duradouros. O meu propósito nasce da vontade de cuidar das relações humanas; de inspirar, provocar reflexão e criar espaço para mudanças consistentes. É esta a missão e o compromisso do Tempo a Dois.

Afinal, o que é o Amor?

O amor pode ser definido como um conjunto de diferentes emoções positivas, como alegria, interesse, contentamento, experienciadas no contexto de relações próximas e seguras, embora também se tenha que admitir que não há amor sem sofrimento. Trata-se de um sentimento composto e complexo que vai muito mais além do simples impulso romântico, envolvendo aspetos psicológicos, neurobiológicos e sociais. Não é então de admirar que o amor não seja aquele estado permanente de entusiasmo, de felicidade, de leveza a que muitas vezes se associa o amor romântico, mas antes uma construção dinâmica, intencional e contínua que requer esforço e dedicação constantes de ambas as partes.

A neurociência explica que o amor não é apenas uma construção social, mas um fenómeno bioquímico complexo. Neurotransmissores como a occitocina, a dopamina, a serotonina, o cortisol determinam a nossa experiência emocional, criando circuitos neuronais que influenciam os nossos vínculos afetivos. Esta compreensão científica não diminui a magia do amor. Pelo contrário, ajuda-nos a apreciar a sua profundidade e complexidade.

O amor é um processo que envolve múltiplas dimensões, não se tratando apenas de atração física ou paixão ardente, mas também de compromisso, cuidado mútuo e intimidade profunda. Queremos estar perto, sentirmo-nos seguros e protegidos e, quando nos separamos, sofremos. Esta vinculação (uma ligação profunda) é essencial para o compromisso e para a satisfação na relação, e um compromisso forte leva a mais intimidade. Por sua vez, o cuidado mútuo é fundamental em todos os tipos de relacionamentos (amizade, família, amor romântico). Significa que estamos atentos às necessidades do outro, com a esperança de que também faça o mesmo por nós. A vinculação e o cuidado reforçam-se mutuamente, fazendo com que nos sintamos cada vez mais próximos. E esta proximidade fortalece a vinculação, que, por sua vez, nos faz cuidar ainda mais do outro.

Aliado a este cuidado, a empatia contribui também para a interdependência relacional. E a confiança e o respeito desempenham igualmente papeis complementares e essenciais na construção de relacionamentos duradouros e satisfatórios, nomeadamente na intimidade, no comprometimento e na vinculação.

Conexão, respeito, confiança e atração são fatores que, embora possam atuar de forma independente, quando um deles é enfraquecido pode afetar negativamente os outros e o amor em si. Da mesma forma, o fortalecimento de um destes fatores influencia positivamente os outros e o amor.

O amor romântico é, então, dinâmico e, para se manter vivo, requer um investimento significativo de ambos os elementos do casal. Vai mudando conforme os acontecimentos, as circunstâncias e o ambiente em que o casal vive, bem como conforme reage a essas mudanças de forma positiva ou negativa. Ou seja, a forma como o casal lida com os desafios que surgem pode fortalecer ou enfraquecer cada um dos componentes do amor. Se estes componentes (atração, conexão, respeito, confiança) faltarem, o amor enfraquece ou até desaparece.

O amor verdadeiro constrói-se nos pequenos gestos do dia-a-dia, pelo que não são os grandes presentes ou as declarações profundas que sustentam um relacionamento, mas sim a gentileza diária, o respeito mútuo e a capacidade de escuta efetiva. É nestas pequenas interações, é quando escolhemos pô-las em prática, que o amor se fortalece e se renova.

Vivemos tempos de grandes revoluções interpessoais e que impactam muito na forma como os casais se relacionam e vivem o amor. A era digital que se impõe atualmente traz desafios inéditos, nomeadamente o facto de a ligação online permanente aproximar e distanciar simultaneamente as pessoas, criando novas dinâmicas nas relações. Enquanto constroem uma vida partilhada, as pessoas procuram manter a sua individualidade, procuram prazer pessoal e satisfazer as suas próprias necessidades. Procuram um equilíbrio entre dependência (relacional) e autonomia e tentam gerir expectativas românticas num mundo de opções aparentemente infinitas. Assim, o amor é uma arte, mas também uma ciência, e exige consciência, trabalho e compromisso. Não é algo que acontece por acaso, mas uma decisão que se toma todos os dias, no sentido de nos ligarmos ao outro, de o respeitarmos e de crescermos juntos. É importante olhar para o amor não só como um sentimento, mas como um conjunto de ações e gestos (pequenos, mas importantes) que contribuem para a atração, a conexão, o respeito e a confiança.

Acredito que, ao compreendermos e aceitarmos a complexidade do amor, podemos construir relacionamentos mais fortes, resilientes e satisfatórios. Num mundo muitas vezes marcado pela superficialidade e pelo imediatismo, a cultura do amor profundo, comprometido e duradouro é uma fonte de alegria e de realização incomparáveis. É uma construção em que vale a pena investir, pois acaba por ser uma obra1 grandiosa e que tem impacto, não só no crescimento e bem-estar individual de cada um, mas também da sociedade em geral.

1Palavra de origem latina e que indica o resultado de uma ação ou do trabalho de um ou mais autores (no âmbito das letras, ciências ou artes) e, quando considerada a melhor produção, é uma obra-prima (https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/obra).

Referências:

Tobore,T. O. (2020) Towards a Comprehensive Theory of Love: The Quadruple Theory. Front. Psychol. 11:862. doi: 10.3389/fpsyg.2020.00862

Fredrickson, B. (2021) The Role of Positive Emotions in Positive Psychology: The Broaden-and-Build Theory of Positive EmotionsAm Psychol. 2001 March ; 56(3): 218–226

As três entidades do Amor: cuidar do Eu, do Outro e do Relacionamento

A importância de cuidar de si próprio, do outro e do relacionamento é fundamental para a saúde emocional e para a longevidade do casal. Ao falar de relacionamentos, identificamos três entidades essenciais: a pessoa, o seu par e o relacionamento em si. Cada uma destas requer atenção e investimento para que a dinâmica amorosa se mantenha saudável e resistente às adversidades.

O primeiro passo é cuidar de si mesmo. Cada elemento do casal deve reconhecer as suas próprias necessidades emocionais e físicas, reconhecer as suas potencialidades e também os aspetos a melhorar, procurando crescimento pessoal e autocuidado. Para isto, é necessário desenvolver autoconhecimento que, não só melhora o bem-estar individual, como também fortalece a capacidade de contribuir para a relação.

Cuidar do outro implica estar atento às suas necessidades e sentimentos. O compromisso de ouvir, apoiar e validar as experiências do outro é fundamental e proporciona uma conexão mais profunda. É importante que cada um se sinta seguro para expressar as suas vulnerabilidades, se sinta amado e valorizado, sabendo que o outro está ali, disponível para escutar e para oferecer suporte.

Por último, cuidar do relacionamento como uma entidade própria envolve dedicar tempo e esforço para alimentar a conexão entre o casal através, por exemplo, de momentos de qualidade juntos, de comunicação aberta, da predisposição para resolver conflitos de maneira construtiva. É fundamental que ambas as pessoas se comprometam a zelar pela “saúde” do relacionamento, que pode ser comparado com um organismo humano, composto por um conjunto de sistemas interligados. Cada um desses sistemas — como a comunicação, a expressão de emoções e a resolução de conflitos — desempenha um papel essencial na manutenção do bem-estar do casal.

O compromisso mútuo em cuidar e investir nestas três áreas — em si mesmo, no outro e na relação — é o que permite que um casal resista às dificuldades. Assim como o corpo humano requer cuidados constantes para funcionar adequadamente, o relacionamento também precisa de atenção regular para crescer de forma saudável. Quando ambos os elementos do casal se dedicam a cuidar da sua própria saúde emocional e física, bem como a apoiar o bem-estar do outro, criam um ambiente propício ao crescimento e à felicidade mútua. Além disso, é importante que priorizem também o relacionamento e lhe dediquem tempo (tal como na carreira profissional, para se evoluir e crescer no relacionamento é preciso tempo, dedicação e aprendizagem; se não se faz este investimento e priorização, o relacionamento estagna ou até perde valor e significado).

Finalmente, é importante reconhecer que o tempo e o ritmo de cada um podem não coincidir. Às vezes é um que está mais disponível ou motivado para puxar pela relação, outras vezes é o outro. O importante é que ambos estejam dispostos a cuidar um do outro e também a permitir que o outro cuide deles. Esta reciprocidade é vital para fortalecer a segurança e os laços emocionais e para garantir que o relacionamento resista às adversidades. Assim, cada pessoa deve assumir a responsabilidade pela sua parte nesta equação e, ao cuidar ativamente destas três entidades, os casais constroem uma base sólida para um amor duradouro e significativo.  É nesta dedicação mútua que assenta a verdadeira essência dos relacionamentos: a capacidade de crescer juntos, de enfrentar desafios lado a lado e de celebrar cada pequena vitória com gratidão.

 

“Ouvir verdadeiramente é amor em ação”

 

Scott Peck enfatiza a importância da escuta ativa nos relacionamentos, especialmente no casamento. Sugere que ouvir verdadeiramente implica concentração total e um esforço consciente para compreender o outro. Este tipo de escuta vai além do simples ouvir das palavras, envolve compreender as emoções e as intenções por trás delas.
Quando um casal consegue praticar uma escuta profunda e atenta, isso pode levar a um maior entendimento mútuo e a uma maior conexão emocional. No entanto, este tipo de comunicação eficaz requer prática e dedicação de ambos os elementos do casal.

“Ouvir verdadeiramente, ter total concentração no outro, é sempre uma manifestação de amor. Uma parte essencial de ouvir verdadeiramente é a disciplina dos parênteses, prescindir temporariamente ou pôr de lado os nossos preconceitos, quadros de referência e desejos, por forma a entrar tanto quanto possível no interior do mundo do outro, pondo-nos no seu lugar. Esta unificação do orador e do ouvinte é, na verdade, uma extensão e um engrandecimento do Eu, e traz sempre consigo novos conhecimentos. Além disso, como ouvir verdadeiramente implica os parênteses, um pôr de lado do Eu, também envolve temporariamente uma total aceitação do outro. Ao sentir esta aceitação, o orador sentir-se-á menos vulnerável e cada vez mais inclinado a abrir ao ouvinte os recantos mais íntimos da sua mente. À medida que isto vai acontecendo, o orador e o ouvinte começam a apreciar-se cada vez mais um ao outro, iniciando-se de novo o dueto de dança do amor. A energia exigida pela disciplina dos parênteses e a focagem de total atenção é tão grande que só pode ser conseguida por amor, pela vontade de se prolongar pelo desenvolvimento mútuo. (…)

Dado que ouvir verdadeiramente é  amor em ação, não existe para ele lugar mais adequado do que no casamento. No entanto, a maior parte dos casais não se ouve verdadeiramente um ao outro. Consequentemente, quando casais nos procuram para aconselhamento ou terapia, uma das tarefas principais que nos incumbem para que o processo seja bem-sucedido é ensiná-los a ouvir. Não é pouco frequente falharmos, já que a energia e a disciplina envolvidas são mais do que as que estão dispostos a gastar ou a submeter-se. Há casais que ficam surpreendidos , e até horrorizados, quando sugerimos que, entre as coisas que devem fazer, é conversar um com o outro por marcação. Parece-lhes rígido, sem romantismo e sem espontaneidade. No entanto, ouvir verdadeiramente só pode acontecer quando se reserva tempo para o fazer e se criam condições de suporte. Não acontece quando as pessoas estão a conduzir, a cozinhar, cansadas, ansiosas por dormir, ou podem ser facilmente interrompidas, ou estão com pressa. O «amor» romântico não exige esforço e os casais sentem-se frequentemente relutantes em empreender o esforço e a disciplina do amor e do ouvir verdadeiros. Mas quando e se o fazem, os resultados são enormemente gratificantes.”

Transcrição de “O caminho menos percorrido” de M. Scott Peck, pp. 118-119

A importância dos rituais de ligação na vida do casal

Os relacionamentos são uma jornada contínua e dinâmica de conexão e reconexão, são como uma dança que alterna momentos de proximidade e distanciamento, revelando simultaneamente complexidade e harmonia. Não sendo bailarina, imagino que seja como dançar o tango, uma dança apaixonante, intensa, por vezes com passos de grande proximidade entre o par, outras vezes com passos mais individualizados ou até de perseguição, mas sempre revelando pontos de contacto e de ligação, não perdendo de vista o seu par e a coreografia, tendo a música como um guia. A coreografia poderá ser o projeto de vida a dois, podendo por vezes necessitar de algum improviso, de ajustes de um e/ou de outro, de apoio mútuo, sendo também necessário um treino prévio (fase de namoro), para se conhecerem, ajustar expectativas, alinhar objetivos e perceber se o par se encaixa de forma harmoniosa. A música será a vida, umas vezes mais calma, outras mais intensa, umas vezes relaxante, outras inquietante, ou umas vezes harmoniosa, outras desconcertante…

Todos os relacionamentos oscilam entre a necessidade de segurança emocional e a busca por novidade e é através dos rituais de ligação que podemos equilibrar esses desejos aparentemente contraditórios.

Pequenos gestos diários, como um beijo de despedida antes de sair para o trabalho, uma mensagem ou telefonema na hora do almoço, ou um momento de partilha ao final do dia, ajudam a construir uma base sólida de segurança. Estes ou outros rituais regulares proporcionam consistência e previsibilidade e, ao saberem que há um momento dedicado ao casal, independentemente das circunstâncias, reforça a ideia de que o relacionamento é uma prioridade, reduz a incerteza e fortalece a confiança mútua. Além disso, estes rituais, por muito pequenos que sejam, constituem momentos em que os elementos do casal estão totalmente presentes um para o outro, a ouvir ativamente e a mostrar interesse genuíno um pelo outro. Pequenos gestos de carinho, como um bilhete amoroso deixado na mesa ou um abraço ao final do dia, são ainda rituais simples que expressam apreciação e dedicação, servindo como lembretes constantes de que o outro é valorizado e amado, fortalecendo a base emocional do relacionamento.

Por vezes os casais queixam-se de monotonia, estagnação, ou de estarem presos nas rotinas diárias, em “piloto automático” (que é como quem diz, “falta salero” nesta dança). De facto, a segurança que os rituais trazem, podem trazer também esse revés, pelo que é importante lembrar que os rituais de ligação permitem simultaneamente a redescoberta e a novidade na relação, mantendo-a viva e estimulante, permitindo que o casal se veja um ao outro sob novas perspetivas e continue a descobrir-se ao longo do tempo. Para isso, é importante incorporar novos elementos nos rituais existentes ou criar novos rituais que possam trazer uma “lufada de ar fresco” ao relacionamento, como por exemplo variar o restaurante “do costume”, experimentar uma atividade nova, ou quebrar a rotina com um almoço a meio do trabalho. Explorar (novos) interesses em comum permite ao casal explorar novas facetas de si mesmos e do outro. Esses momentos criam novas memórias e permitem que o casal se redescubra em diferentes contextos (porque não umas aulas de tango, ou uma atividade desportiva em conjunto?). Além dos rituais regulares, pequenos atos de espontaneidade, como um convite inesperado para uma escapadela a dois, ou uma mensagem carinhosa enviada ao longo do dia, podem trazer uma sensação de excitação e surpresa, ajudando a quebrar a rotina e a introduzir uma dose saudável de novidade na relação.

Os rituais de ligação são como os passos de uma dança de tango, trazem dinamismo e movimento à relação, ora proporcionando a segurança de um abraço apertado, ora permitindo a emoção de uma volta inesperada. Ao equilibrar estes dois elementos, segurança e novidade, os casais podem construir uma relação plena e duradoura, onde ambos se sentem comprometidos, seguros e continuamente inspirados a redescobrir o amor, mesmo em alturas de maior adversidade. Os rituais são ainda um lembrete da escolha que fizeram, dizendo um ao outro que o escolheram para dançar neste bailado que é a vida.

P.S. – Este texto foi escrito ao som de música “The best of tango” através do youtube. 🙂

Texto escrito para o Blog do Pausa para Sentir – https://www.pausaparasentir.pt/blog/a-importancia-dos-rituais-de-ligacao-na-vida-do-casal

Conversas que curam: como discutir de forma construtiva

As pessoas são muito diferentes umas das outras. Muitas das pessoas importantes para nós têm formas diferentes de pensar, de comunicar, de reagir, de decidir, de lidar com o conflito, de lidar com o desafio, de mostrar preocupações, de perseguir os seus objetivos… E ao lembrarmos-nos disto percebemos porque é que é tão fácil surgirem desentendimentos, discussões ou conflitos, mesmo com as pessoas que nos são mais próximas e que mais amamos.

Perante a palavra conflito, é comum que as pessoas a associem a algo negativo, que gera discórdia, afastamento e sentimentos menos agradáveis. No entanto, nem todos os conflitos são prejudiciais. Na verdade, alguns podem mesmo trazer mudanças positivas, crescimento pessoal, descoberta de novas soluções e melhorias nos relacionamentos. Os conflitos são inevitáveis e até saudáveis, fazem parte das interações e das relações humanas e é a forma como são geridos e resolvidos que determina os seus resultados e impactos. Em vez de os evitar, é importante aprender a lidar com os conflitos de forma construtiva.

Assim, tendo em conta uma relação de casal, não é expectável que sejam imunes e ausentes de conflitos, tensões, divergências. Todos os casais discutem! Há casais que têm um elevado grau de conflito, que se deparam com grandes divergências (quer nas pequenas, quer nas grandes questões), que podem até ter um estilo de comunicação mais “aceso”, mas não é isto que vai ditar uma eventual rutura ou separação. Assim como há casais que, aparentemente, estão de acordo em tudo, raramente discutem, parecem viver numa sintonia e harmonia “ensurdecedoras”. E quando nos deparamos com um conflito, normalmente pensamos e pressionamos-nos para encontrar uma solução. Mas e quando não há uma solução possível? Na verdade, muitos dos problemas que geram conflito num casal não têm uma solução e acabam por permanecer no tempo. Por exemplo, questões relacionadas com incompatibilidades com as famílias de origem um do outro, desejo de ter ou não ter (mais) filhos, características individuais mais vincadas, por vezes provenientes da própria história de vida de cada um, são algumas situações que podem gerar problemas e conflitos no casal, não sendo possível encontrar uma resolução consensual (uma situação “ganha-ganha”, pois um dos elementos do casal “ganha” e o outro “perde”). Nestas situações, é então fundamental gerir o conflito/problema, e não resolvê-lo (porque não tem solução).

Alguns dos sinais que indicam que estamos a gerir uma discussão ou conflito de forma negativa, não funcional, e tendencialmente destrutiva são:

  • Interações e sentimentos predominantemente negativos, contribuindo para um aumento da escalada de tensão e para a personificação do problema, adotando posturas de acusação e menos centradas no problema. Estas posturas levam um ou ambos os membros do casal a apresentar, por exemplo, elevação no tom de voz (e outras ativações fisiológicas, como a aceleração do batimento cardíaco), desrespeito, desconsideração pelo outro, falta de compreensão das necessidades e sentimentos do outro, falta de empatia, desenvolvendo uma visão negativa do outro e do próprio relacionamento.
  • Elevado criticismo e desvalorização do outro, realçando apenas aquilo que o outro tem de negativo, através por exemplo de insultos, críticas pessoais, ataques à dignidade, o que proporciona uma perspetiva redutora e negativa do outro, em vez de se forcar na resolução do problema.
  • Atitude defensiva, negando qualquer tipo de responsabilidade na situação e centrando culpas no outro.
  • Desprezo, adotando uma postura de superioridade ou de menosprezo em relação ao outro (sarcasmo, insultos, inferiorizar o outro).
  • Desistência ou desligamento emocional, na medida em que se verifica ausência de qualquer tipo de afeto positivo durante o conflito, ignorando as tentativas de aproximação e de conexão emocional apresentadas pelo outro (“virar costas”).
  • Incapacidade para travar a escalada de tensão, apresentando dificuldade na regulação da impulsividade/reatividade, quer em si próprio, quer no outro.
  • Incapacidade para aceitar a influência do outro.

É importante discutir “bem”, com qualidade, de maneira que o conflito tenha um carácter construtivo e funcional, ou seja, que proporcione crescimento individual e/ou em casal, que permita evoluir e não destruir o casal.

Os casais mais felizes e funcionais abordam os problemas de forma calma e respeitosa e têm em conta a dimensão emocional, não ignorando as emoções mais difíceis e dolorosas.

Perante questões difíceis ou problemas, algumas estratégias que ajudam os casais a discutir com qualidade e de forma mais construtiva são:

  • Escolher o momento e o local adequados para abordar o assunto, assegurando que ambos se sentem disponíveis, seguros e à vontade para expressar e explorar as suas emoções mais profundas, as suas necessidades e preocupações, com calma e sem medo de críticas ou julgamentos.
  • Comunicar de forma clara e assertiva, falando na primeira pessoa (“eu sinto…”, “eu preciso de…”), transmitindo assim o que sente e quais as suas necessidades, evitando um tom de crítica e de julgamento em relação ao outro.
  • Escutar o outro e validar os seus sentimentos, adotando uma postura de “bom ouvinte” (mesmo que discorde) e deixando de lado a sua própria agenda (as suas necessidades, as suas emoções), verificando se está a receber bem a mensagem que lhe está a ser transmitida, por exemplo, reformulando aquilo que ouviu e perguntando se foi isso (preocupações, medos, anseios) que o outro quis transmitir.
  • Deixar-se influenciar pelo outro, evitando a rigidez (em que cada um fica na sua posição e mantém os mesmos argumentos) e mantendo o respeito um pelo outro, aceitando as diferenças de cada um e confiando que cada um quer o melhor para o outro, separando o problema da essência da pessoa.
  • Prevenir a negatividade na interação, evitando a escalada de tensão, procurando comunicar de forma consistentemente positiva.
  • Ter a capacidade de reparar a interação, diminuindo a escalada de tensão, por exemplo pedindo desculpa por algo que tenha dito de forma menos adequada, reformulando, procurando regular-se emocionalmente para que possam tentar novamente discutir o problema e lembrando o verdadeiro sentido da discussão (que não é para magoar o outro).

As discussões e os problemas no casal, sendo geridas de forma mais construtiva, proporcionam maior autoconhecimento (individual e do casal – sobre as suas preocupações, os seus medos, os seus sonhos, os seus valores), podendo surgir novos entendimentos, novas estratégias para gerir situações mais difíceis e, acima de tudo, maior intimidade e proximidade. Isto é possível, não só desenvolvendo afetos positivos durante os conflitos, mas também fora deles, na relação em geral. Na verdade, tal como defende o psicólogo John Gottman, é fundamental que o casal vá contribuindo para uma “poupança emocional” para que, em momentos mais difíceis, possa recorrer às suas reservas, sendo de evitar que o seu saldo de afetos positivos fique “a zeros”.

Concluindo, é bom discutir, mas com qualidade! E a terapia de casal pode ser uma ferramenta valiosa para superar desafios e fortalecer o vínculo, sendo um tempo e um espaço do e para o casal, onde podem ser discutidas e trabalhadas estratégias que contribuam para o seu crescimento. Finalmente, há um novo espaço para uma “Pausa para Sentir”, onde os casais poderão usufruir de acompanhamento especializado e personalizado, num ambiente acolhedor e com uma equipa de profissionais dedicada! Venham conhecer-nos!

 

(Texto escrito para o Blog do “Pausa para Sentir”, publicado a 25 Maio 2024 – https://www.pausaparasentir.pt/blog/conversas-que-curam-como-discutir-de-forma-construtiva)