O “passenger mode” e o futuro emocional e relacional de uma geração

Há fenómenos que só percebemos verdadeiramente quando começamos a ver o seu eco na vida adulta, não apenas na identidade individual, mas também na vida a dois. O “passenger mode” é um deles.

Foi ao ler o artigo The Teen-Disengagement Crisis (The Atlantic, 2025) que conheci a expressão “passenger mode”, que me ficou gravada e deu nome a muito do que vejo hoje em dia: adolescentes que deixam de se ver como protagonistas da própria aprendizagem e passam a ocupar um lugar passivo, quase anestesiado, no seu percurso escolar e no seu desenvolvimento. Deixam-se ir no lugar do passageiro…

Não é um fenómeno novo, mas está a tornar-se demasiado frequente para ser ignorado. E, na verdade, no meu trabalho vejo o que acontece quando este desligamento não é travado a tempo.

Faço aqui uma reflexão dividida em cinco partes: o que está a acontecer, o reflexo disso que vejo na minha prática clínica, o que potencia este fenómeno, o que falta aos adolescentes de hoje e o que podemos fazer.

1. O silêncio que se instala

O artigo descreve algo que muitos professores, psicólogos e pais reconhecem: por volta do 7.º ou 8.º ano, o interesse pela aprendizagem cai abruptamente. Não é apenas desmotivação escolar, é uma espécie de retração existencial. Uma sensação de que “não vale a pena”, “não faz diferença”, “não sou bom o suficiente”.

Jonathan Haidt tem vindo a alertar para isto há anos. A combinação de hiperexposição digital, redução da autonomia real e aumento da ansiedade criou uma geração que vive mais no ecrã do que no mundo, mais na comparação do que na experiência, mais no medo do erro do que na curiosidade. Este psiquiatra e autor do livro A Geração Ansiosa refere mesmo que a ansiedade é o preço a pagar por uma infância vivida sem riscos (dentro daquilo que é esperado e saudável que uma criança experiencie) e que é fundamental preparar a criança para fazer o seu caminho, e não preparar o caminho para a criança o fazer.

Em Portugal, os dados confirmam esta tendência:

  • O relatório PISA 2022, referenciado no “Monitor da Educação e da Formação de 2025”, mostrou que Portugal teve uma das maiores quedas de sempre em literacia matemática e científica, acompanhada por um aumento significativo de ansiedade escolar.
  • A OCDE, no estudo Child, Adolescent and Youth Mental Health in the 21st Century, identificou que Portugal é um dos países onde a pressão académica e o mal-estar emocional dos adolescentes mais se destacam. Entre os dados mais gritantes está a evolução da percentagem de jovens de 15 anos que relatam sentimentos de tristeza ou desesperança.
  • O estudo Health Behaviour in School-aged Children (2022) revelou que os adolescentes portugueses estão entre os que mais referem sentir-se cansados, desmotivados e emocionalmente sobrecarregados.

Não é difícil perceber porque é que tantos entram em “passenger mode”.

2. O reflexo do “passenger mode” que vejo na minha prática clínica

Enquanto psicóloga de jovens adultos e casais, vejo o prolongamento deste fenómeno e isto manifesta-se de formas muito concretas:
  • Os jovens adultos têm muita dificuldade em tomar decisões, não por falta de inteligência, mas por falta de prática. Cresceram a cumprir, não a decidir, o que faz com que, entrando na vida adulta, vivam com muita ansiedade e angústia os momentos em que têm de fazer escolhas, tendo muito medo de errar. Ouço frequentemente frases como “tenho medo de tomar decisões”, “não sei o que quero”, “não quero falhar, por isso não tento”.
  • Muitos adultos vivem em piloto automático, ou seja, até podem ser profissionalmente competentes, mas estão emocionalmente desligados, caindo no desânimo e na falta de propósito. Sabem fazer, mas não sabem porquê.
  • As relações são marcadas por evitamento ou dependência. Os jovens não aprenderam a pedir, a negociar, a ajustar ou a reparar emocionalmente. Têm medo de se mostrar vulneráveis e não aprofundam verdadeiramente as ligações emocionais, ficando mais na superficialidade (“é mais seguro”). A psicóloga Esther Perel refere que a qualidade das nossas relações determina a nossa qualidade de vida. Fala de “inteligência relacional” e em como ninguém nasce com esta competência, tendo de ser treinada, construída, experimentada. Mas um adolescente em “passenger mode não experimenta, cumpre ou deixa-se ir. E cumprir ou deixar-se ir não é o mesmo que viver.
  • Casais que não sabem discutir sem se magoar, porque nunca aprenderam a tolerar desconforto, a sustentar um conflito ou a defender um ponto de vista sem medo de rejeição.

3. O que está na raiz do “passenger mode”?

Não é preguiça, nem falta de valores. Não é “a geração mais frágil de sempre” ou “menos capaz” ou que “não quer saber”. É um conjunto de fatores que acabam por se reforçar mutuamente. São as escolas sobrecarregadas, com currículos extensos e pouca margem para a criatividade. São as famílias exaustas, com menos tempo, mais pressão e mais ansiedade. É uma sociedade acelerada, que valoriza desempenho e visibilidade, promove mais o “ter” do que o “ser”, em detrimento da profundidade e da autenticidade. São os ambientes digitais que aprisionam a atenção, aumentam a comparação e reduzem a tolerância à frustração. É a incapacidade de abrandar, o medo constante de perder algo, que nos mantém num estado de hiperestimulação que anestesia mais do que nos entusiasma. É a falta de espaço para a autonomia real, para errar, experimentar, questionar.

Jonathan Haidt resume isto de forma simples “estamos a criar adolescentes seguros demais para arriscar e ansiosos demais para agir.”

4. O que falta, então, aos adolescentes e jovens?

Aquilo que falta aos adolescentes e jovens de hoje são competências que, quando ausentes, reaparecem como fragilidades na vida adulta e nas relações: autonomia, propósito e gosto pelo desafio.

Falta autonomia, não para fazerem o que quiserem, mas para terem espaço para decidir e para se responsabilizarem e lidarem com as consequências.

Falta propósito, não para serem os maiores e alimentarem a ânsia de TER mais, mas para darem sentido à sua vida, motivando-se para SER mais, tornando-se cada vez melhores pessoas, contribuindo para um mundo melhor.

Falta o gosto pelo desafio e pelo questionamento. A curiosidade é uma das competências que mais falta faz aos adolescentes de hoje. A curiosidade desenvolve pensamento crítico e resiliência e é um motor para a vida adulta, permite-nos avançar e evoluir.

5. E qual é o nosso papel? O que podemos fazer enquanto família, escola e sociedade?

Mais do que o que devemos fazer, é necessário pensar que tipo de presença queremos ser na vida dos adolescentes que crescem connosco. Porque eles não precisam de mais regras, nem de mais discursos e instruções. Precisam de adultos que lhes mostrem o mundo como um lugar seguro, curioso e onde é possível ser feliz.

Precisam de sentir autonomia, não como independência precoce descontrolada, mas como um espaço real para experimentar, testar limites, errar sem serem esmagados pela culpa ou pela vergonha. A autonomia não se ensina aos 18 anos, mas sim desde pequenos, nos momentos em que confiamos antes de controlar.

Precisam de ambientes onde a segurança emocional é real e não um “cliché”. Lugares onde o vínculo vale mais do que o desempenho, onde a relação vem antes da exigência. Como diz Jane Nelson, autora da disciplina positiva, “connect then correct”, pois a aprendizagem nasce da conexão, do encontro, e não do medo.

Precisam que falemos de futuro com abertura e flexibilidade, e não como um destino fechado e rígido. O futuro não é um lugar que fica no fundo do caminho, é um horizonte para o qual os adolescentes só querem navegar quando se sentem livres e sem medo de julgamentos e de crítica.

Precisam de silêncio, de pausa e até de tédio. Não diabolizando a tecnologia, que traz muitos benefícios, numa era em que a atenção dos adolescentes é roubada a cada segundo, o maior presente que lhes podemos dar é espaço mental, para que possam ouvir-se e descobrir-se a si próprios.

Precisam que valorizemos o processo e não apenas o resultado. E que bom que é usufruirmos do processo, valorizando as pequenas conquistas e aprendendo com o que corre menos bem.

E precisam de escolas que tenham tempo, equipas educativas e condições para ensinar e educar com sentido. Sem segurança emocional, não há aprendizagem efetiva.

Concluindo, o adolescente que hoje vive em “passenger mode” é o jovem adulto que amanhã tem medo de arriscar, evita decisões, duvida do seu valor, entra em relações com insegurança e sente que a vida “lhe acontece”.

É urgente devolver aos jovens a sensação de que são protagonistas da própria vida. A felicidade, como lembra Arthur Brooks, depende de agir e não de esperar que a vida aconteça. E o “passenger mode” é precisamente a perda desta ação.

O desconforto faz parte e é essencial para o crescimento emocional. Não é por acaso que se fala em “dores de crescimento”. Crescer dói, mas ficar preso e não crescer dói muito mais.

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Como trabalho com as emoções?

A mudança começa quando damos espaço ao que sentimos

Acredito que cada pessoa tem dentro de si uma essência, aquilo que surge quando conseguimos contactar com o que é mais autêntico, pleno e verdadeiro. O contacto com a nossa essência, com o nosso Eu mais puro, surge depois de compreendermos e aceitarmos os lugares emocionais onde nos encontramos e deixarmos cair as barreiras, as máscaras e o ruído que a vida nos impôs. É essa essência que procuramos (re)encontrar ao longo do processo terapêutico, não como ponto de partida, mas como destino possível quando nos aproximamos das nossas emoções com verdade e autenticidade.

Trabalhar com emoções não é apenas compreendê‑las racionalmente. É permitir que elas se revelem tal como são, com a sua intensidade, a sua história e a sua necessidade. A aceitação é sempre o primeiro passo: olhar para a emoção sem julgamento, reconhecer o que ela traz, perceber o que procura proteger ou sinalizar. Só quando uma emoção é verdadeiramente acolhida é que se torna possível transformá‑la. E essa transformação (que não é substituição, porque não mandamos naquilo que sentimos) acontece sempre através de outra emoção. Não mudamos medo com lógica, mas com segurança. Não mudamos vergonha com argumentos, mas com compaixão. Não mudamos solidão com explicações, mas com ligação. É este encontro entre a emoção antiga e uma nova experiência emocional que permite que o corpo aprenda algo diferente e que a pessoa comece a responder ao mundo de forma mais livre, sem ficar refém de emoções difíceis desencadeadas por situações ou experiências do passado.

Assim, à medida que a emoção é acolhida e transformada, novos significados começam a surgir e a pessoa compreende melhor o que sente, o que precisa, o que teme e o que deseja. E, com isso, nasce uma nova liberdade interna e consequente paz interior, porque já não está a lutar contra aquilo que está a sentir.

Para que isto seja possível, a terapia precisa de um espaço seguro e de uma relação empática, onde a pessoa se sinta acompanhada e não julgada. A minha postura é estar presente, disponível e atenta, criando condições para que emoções difíceis possam emergir sem que a pessoa volte a ficar sozinha com elas. A partir daí, trabalhamos com tarefas específicas que ajudam a ativar a emoção certa, no momento certo, para que ela possa ser revista, compreendida e atualizada.

O processo é profundo e transformador: chegamos à emoção que dói, colocamos palavras onde antes havia apenas tensão, confusão ou silêncio, e damos-lhe significado. Quando a pessoa está verdadeiramente nesse lugar emocional, abrimos caminho para sair dele, trazendo novas emoções que reescrevem a experiência interna. É assim que se passa, por exemplo, do medo para a segurança, da autocrítica para a autoaceitação, da raiva contida para a assertividade, do desespero para a esperança realista, da confusão para a clareza, da tristeza paralisante para a capacidade para avançar. Este trabalho é sustentado pela Terapia Focada nas Emoções, uma abordagem experiencial baseada em anos de investigação sobre mudança emocional.

A terapia torna-se então um caminho de reencontro e resgate da essência: aquilo que a pessoa sempre foi, mas que ficou escondido debaixo de camadas de dor, exigência ou sobrevivência emocional. O meu papel é acompanhar esse caminho com rigor, presença e humanidade, criando condições para que a mudança emocional aconteça de forma real e duradoura, permitindo que a pessoa viva com mais paz interior e liberdade.

(imagem criada com recurso a IA)

Conhecem “Casais Robustos”?

Numa época em que as relações enfrentam ritmos acelerados e múltiplas exigências, o que distingue os casais emocionalmente resilientes?

Tal como nas fotografias que partilho (a primeira tirada pela Luísa Gonçalves da Costa e a segunda tirada por mim), há dias cheios de sol e outros de tempestade. Casais robustos são aqueles que, mesmo nos dias difíceis, não deixam que o mau tempo se instale para sempre no seu relacionamento. Enfrentam as tempestades lado a lado, com segurança e confiança de que o sol há de voltar (porque, na verdade, o “boletim meteorológico” da sua relação costuma apresentar céu limpo e brisa fresca).

Curiosamente, “Casais Robustos” também é o nome de uma aldeia do distrito de Santarém localizada numa encosta da Serra de Aire, pertencente à freguesia de Moitas Venda, Município de Alcanena e é parte integrante do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (para os mais curiosos, conheçam a sua origem em https://pt.wikipedia.org/wiki/Casais_Robustos). Ao passar por lá (só fotografámos à saída…), lembrei-me de casais robustos que conheço, pessoal e profissionalmente, e do esforço diário que fazem para o ser.

Mas afinal, o que é ser um casal robusto?

É ter um vínculo seguro, ou seja, aproveitar os momentos de bonança e, ao mesmo tempo, aguentar as tempestades sem abandonar o barco. É respeitar as diferenças, ficar um ao lado do outro mesmo quando há algum distanciamento e, acima de tudo, garantir que não se instala o desligamento emocional. Quando sentimos que o outro nos ama e nos valoriza, conseguimos atravessar qualquer tempestade.

No fundo, todos procuramos o mesmo: sentir-nos amados pelo que somos e reconhecidos pelo que fazemos. Quando isso falha, erguemos barreiras e recorremos a reações de autoproteção (afastamo-nos, reagimos em excesso ou ficamos sem ação) para não sentirmos rejeição ou abandono. No entanto, ao fecharmo-nos, cortamos precisamente a conexão de que mais precisamos.

Casais próximos e conectados emocionalmente são aqueles que compreendem os medos e as necessidades um do outro e procuram atendê-las. Dizer “preciso de atenção”, “preciso de espaço” ou “preciso de sentir segurança” é essencial e, quando estas necessidades são atendidas, o casal permanece próximo e seguro. Contrariamente, quando não são atendidas, surgem os comportamentos de protesto (como queixas, críticas, silêncios), que são sinais claros de pedidos não ouvidos. Esta ligação constrói-se no dia-a-dia, na forma como falam, como se comportam e até na forma como pensam um no outro.

Muitas das nossas necessidades emocionais de adultos têm origem na forma como fomos cuidados na infância. A teoria da vinculação mostra que, se crescemos a acreditar que emoções eram fraqueza ou que tínhamos de enfrentar dificuldades sozinhos, é provável que, em adultos, evitemos falar sobre o que sentimos. Fechamo-nos como defesa, mas o outro pode interpretar isso como desinteresse ou afastamento. Pelo contrário, quem cresceu a sentir-se ouvido e protegido aprende a procurar o outro em situações difíceis (para falar, partilhar, pedir presença). Porém, quando esta procura se torna intensa, o outro pode sentir-se invadido e acabar por recuar, deixando-nos com sentimentos de rejeição ou incompreensão.

Casais robustos não são casais sem conflitos. São aqueles que acreditam que, mesmo nos momentos difíceis, o outro vai estar lá para responder às suas necessidades. Mesmo que haja distância ou desencontros, confiam que vão reencontrar o caminho. E, quando falham, conseguem pedir desculpa, reparar e reconstruir a ligação. Ser casal robusto não é viver sem tempestades, mas ter a certeza de que, juntos, conseguem atravessá-las.

Em vez de comparar e cobrar, valorizar e agradecer!

Numa sociedade que valoriza métricas e produtividade, como é que o espírito de equipa e a gratidão podem transformar a vida em casal?

“Sou sempre eu que trata de tudo cá em casa!”

“Sou sempre eu a decidir e a tratar das férias!”

“Se não fosse o meu trabalho, não teríamos a vida que temos!”

“Tu nunca fazes…”

Estes desabafos são familiares? São questões como estas que muitas vezes surgem na consulta de casal, demonstrando algum descontentamento, frustração e/ou sobrecarga por sentirem que há algum tipo de desequilíbrio na distribuição de tarefas, sejam de cariz doméstico, financeiro ou de logística familiar. Muitos procuram uma divisão total em tudo: nas despesas, nas tarefas, na dedicação emocional. No entanto, os casais saudáveis e duradouros são aqueles que aceitam que cada fase da vida exige diferentes contributos de cada um e que reconhecem o valor do outro, sem inveja e sem vergonha. É muito fácil entrar numa contabilidade e ajuste de contas, tentando ao máximo dividir de igual forma tudo o que se faz ou tudo o que é necessário para a gestão e planeamento da família, como se pudéssemos medir dedicação com tabelas de “Excel”.

Ambos os elementos do casal têm igual responsabilidade na execução e no funcionamento familiar. Para muitos casais é essencial que haja uma divisão 50/50 de tudo o que são tarefas e responsabilidades e isso, dada a natureza diferente de cada um, nem sempre funciona de forma harmoniosa, pois há pessoas com mais habilidade, sensibilidade ou apetência para umas coisas e não tanto para outras. Assim, o sucesso familiar não reside numa “calculadora”, mas sim num verdadeiro trabalho de equipa! E, na verdade, e aludindo a uma comparação futebolística, quem é que faz mais ou quem é mais importante, o guarda-redes ou o ponta de lança? Ambos são importantes e, só juntos, conseguem vencer.

Reduzir a vida a contas ao milímetro (quem faz mais, quem dá mais, quem se sacrifica mais) só traz desgaste, cobranças e ressentimentos silenciosos. O segredo é que haja um verdadeiro trabalho de equipa, complementar, em que cada um põe ao serviço do outro e da família as suas competências e habilidades. O verdadeiro equilíbrio familiar encontra-se não na comparação, mas na cooperação e no reconhecimento mútuo. É importante que ambos valorizem competências, talentos e contributos um do outro, mesmo quando ocorrem em áreas muito diferentes, como a gestão financeira, o cuidado emocional, a organização doméstica ou a gestão educacional.

Ao longo do tempo, é natural que um assuma maior relevância ou destaque em determinadas situações, e outro noutras. Isso não diminui ninguém; mostra, sim, que a família é um todo feito de peças diferentes, mas todas imprescindíveis. O verdadeiro equilíbrio reside numa vivência feita de respeito, cumplicidade e generosidade, na capacidade de apoiar o outro, sem invejas nem listas de créditos, e no reconhecimento, sem esperar retorno imediato ou visibilidade pelo que se faz. Na verdade, a soma de todos os esforços é o que traz bem-estar, segurança e felicidade a toda a família.

A família, e o casal especificamente, não é palco de rivalidades nem de “contagens”, mas um espaço onde todos podem contribuir e, a seu tempo, ser protagonistas. O verdadeiro sucesso está em sentirem-se essenciais, não por aquilo que fazem individualmente ou exibem, mas pelo conforto e equilíbrio que constroem juntos, todos os dias.

Concluindo, forçar o equilíbrio matemático (ou seja, cada um faz exatamente metade) gera frequentemente ressentimentos, cobranças e silêncios. O que sustenta o casal é o compromisso, a disponibilidade para dar o melhor de si ao outro e à família, a dedicação diária e o saber reconhecer o outro e agradecer. Ninguém constrói sozinho (com os seus talentos individuais) um relacionamento de sucesso, são precisos dois, um sentido de “nós”, uma interdependência saudável e complementar, para que o casal seja feliz e cresça em conjunto! Em vez de comparar e cobrar, é preciso valorizar as diferenças e agradecer!

(texto escrito para o Blog do site do Pausa para Sentir)

(imagem Pixabay)

As pessoas serão sempre pessoas!

Terminei mais um grupo de formação com jovens recém-chegados ao mercado de trabalho. Foi muito interessante perceber que, mais do que receber informação e conhecimento, aquilo que mais apreciaram foi a oportunidade para trocarem experiências, para se conhecerem e para se ligarem uns aos outros, experienciando autenticidade e proximidade.
Por mais que o mundo mude, com informação e conhecimento a circular a alta velocidade, com avanços tecnológicos e inovações constantes, o que realmente importa são as relações humanas.

A tecnologia pode reinventar o nosso dia-a-dia e transformar a forma como comunicamos, aprendemos ou vivemos, mas nenhum algoritmo é capaz de substituir a essência dos laços humanos: o respeito, a empatia, a confiança e o amor. Estes são os ingredientes que sustentam relações sólidas e que dão qualidade e sentido à nossa existência, independentemente do contexto em que vivemos.

As pessoas serão sempre pessoas e precisarão sempre de se ligar umas às outras com autenticidade.

Deram-me uma poção mágica!

Ontem, depois de um longo dia de consultas, saí da clínica já tarde, apressada, ansiosa por chegar a casa, jantar e estar com a minha família. Sentia-me cansada, sem energia, com uma dor de cabeça a querer instalar-se (o corpo a pedir descanso). No meio das conversas sobre o que seria o jantar, lembraram-me de um pequeno detalhe: era preciso comprar uma pilha para o dia seguinte, para uma aula. Curiosamente, este pedido até tinha sido feito com alguma antecedência (quase duas semanas!) “Tenho tempo, depois compro…”, pensei. Mas o tempo foi passando, e, como algumas vezes acontece, só na véspera me lembrei da pilha. Mais um desvio a caminho de casa, quando tudo o que queria era repousar. Sentia-me como um céu de fim de tarde a encher-se de nuvens, o ar a ficar mais denso, a cabeça mais pesada.

Depois de perceber que o primeiro sítio onde me dirigia para comprar a pilha estava fechado, nada como ter de me mentalizar que não ia escapar de uma ida ao shopping… Decidi aproveitar para trazer o jantar de lá, poupando tempo à família. Pilha comprada, missão cumprida, uma nuvem a dissipar-se. Mas ainda faltava o jantar. Enquanto esperava que uma cliente terminasse o seu pedido, dei por mim a contar os minutos, cada vez mais focada na vontade de chegar a casa, cada vez mais sensível ao ruído e à luz, a dor de cabeça a aumentar. Fui atendida, pedi o jantar quase em esforço, e fiquei a aguardar, sozinha, naquele espaço.

Foi então que reparei no rapaz que me tinha atendido. Olhava para mim, talvez intrigado, talvez preocupado. Senti que ele estava a perceber que eu não estava bem e parecia hesitar sobre se devia ou não falar comigo. Em dias normais teria puxado conversa, mas naquele momento simplesmente não consegui. Fiquei ali, em silêncio.

Até que, com um sorriso tímido, ele aproximou-se:

– “É a primeira vez que vem a este restaurante?”

Respondi que não. Mais um silêncio.

– “E estava sempre tudo bom?”

Respondi que sim. Outro silêncio.

– “Já provou a nossa limonada?”

Respondi que não.

Ele olhou para mim com um sorriso mais decidido.

– “Quer experimentar? É mesmo feita por nós.”

Foi aí que o céu se abriu. Aceitei a limonada e, à medida que fui sentindo a frescura e o sabor do limão, senti-me mais leve. Era como se, naquele gesto simples, alguém tivesse cuidado de mim. Uma verdadeira poção mágica.

Cheguei a casa com a cabeça limpa, leve, sorridente, praticamente sem dor. Fiquei a pensar no impacto que aquele pequeno gesto teve no meu bem-estar. A forma como nos relacionamos, como olhamos e cuidamos do outro, pode transformar o dia de alguém, e o nosso também.

Como psicóloga, vejo todos os dias o valor da atenção e da presença genuína. Não precisamos de grandes gestos para fazer a diferença; basta estarmos atentos, disponíveis, presentes. O cuidado com o outro é também um cuidado connosco. Quando nos permitimos estar atentos, não só ajudamos quem está à nossa frente, como também cultivamos o nosso próprio bem-estar.

Por isso, deixo aqui o meu agradecimento àquele rapaz que, com sensibilidade e coragem, me ofereceu um momento de cuidado. Que esta partilha seja um lembrete: todos os dias temos a oportunidade de estar atentos a quem nos rodeia e, com pequenos gestos, contribuir para um mundo mais leve e humano.

“Ouvir verdadeiramente é amor em ação”

 

Scott Peck enfatiza a importância da escuta ativa nos relacionamentos, especialmente no casamento. Sugere que ouvir verdadeiramente implica concentração total e um esforço consciente para compreender o outro. Este tipo de escuta vai além do simples ouvir das palavras, envolve compreender as emoções e as intenções por trás delas.
Quando um casal consegue praticar uma escuta profunda e atenta, isso pode levar a um maior entendimento mútuo e a uma maior conexão emocional. No entanto, este tipo de comunicação eficaz requer prática e dedicação de ambos os elementos do casal.

“Ouvir verdadeiramente, ter total concentração no outro, é sempre uma manifestação de amor. Uma parte essencial de ouvir verdadeiramente é a disciplina dos parênteses, prescindir temporariamente ou pôr de lado os nossos preconceitos, quadros de referência e desejos, por forma a entrar tanto quanto possível no interior do mundo do outro, pondo-nos no seu lugar. Esta unificação do orador e do ouvinte é, na verdade, uma extensão e um engrandecimento do Eu, e traz sempre consigo novos conhecimentos. Além disso, como ouvir verdadeiramente implica os parênteses, um pôr de lado do Eu, também envolve temporariamente uma total aceitação do outro. Ao sentir esta aceitação, o orador sentir-se-á menos vulnerável e cada vez mais inclinado a abrir ao ouvinte os recantos mais íntimos da sua mente. À medida que isto vai acontecendo, o orador e o ouvinte começam a apreciar-se cada vez mais um ao outro, iniciando-se de novo o dueto de dança do amor. A energia exigida pela disciplina dos parênteses e a focagem de total atenção é tão grande que só pode ser conseguida por amor, pela vontade de se prolongar pelo desenvolvimento mútuo. (…)

Dado que ouvir verdadeiramente é  amor em ação, não existe para ele lugar mais adequado do que no casamento. No entanto, a maior parte dos casais não se ouve verdadeiramente um ao outro. Consequentemente, quando casais nos procuram para aconselhamento ou terapia, uma das tarefas principais que nos incumbem para que o processo seja bem-sucedido é ensiná-los a ouvir. Não é pouco frequente falharmos, já que a energia e a disciplina envolvidas são mais do que as que estão dispostos a gastar ou a submeter-se. Há casais que ficam surpreendidos , e até horrorizados, quando sugerimos que, entre as coisas que devem fazer, é conversar um com o outro por marcação. Parece-lhes rígido, sem romantismo e sem espontaneidade. No entanto, ouvir verdadeiramente só pode acontecer quando se reserva tempo para o fazer e se criam condições de suporte. Não acontece quando as pessoas estão a conduzir, a cozinhar, cansadas, ansiosas por dormir, ou podem ser facilmente interrompidas, ou estão com pressa. O «amor» romântico não exige esforço e os casais sentem-se frequentemente relutantes em empreender o esforço e a disciplina do amor e do ouvir verdadeiros. Mas quando e se o fazem, os resultados são enormemente gratificantes.”

Transcrição de “O caminho menos percorrido” de M. Scott Peck, pp. 118-119

Amar e ser amado

Uma pessoa consegue mudar quando se sente verdadeiramente compreendida e aceite pelo que é. “O maior desejo do Homem é amar e ser amado, por isso, o seu maior medo é ser rejeitado. O não ser aceite pelo que é. Desta realidade nascem as defesas, os preconceitos, as barreiras e os muros altos intransponíveis que tantas vezes erguemos à nossa volta e que distorcem a comunicação.” (in “Ouvir, Falar, Amar”, p. 12, de Laurinda Alves).