É importante fazer pausas a dois!
As emoções são como as ondas
As emoções são info
rmação que não devemos ignorar, nem bloquear, nem tentar esconder. Indicam-nos precisamente o que é importante para nós, do que é que precisamos ou o que é que queremos, o que é que devemos fazer e ainda quem é que nós somos e como é que são os outros.
Há que “surfar” as ondas das emoções, em segurança e com os recursos certos. Se tentarmos fugir da onda, ela acaba por nos apanhar, se nos deixamos ficar sem a prancha ou a bóia certa, ela inunda-nos, mas se escolhermos os recursos certos, podemos deixá-la vir e vivê-la em segurança.
E podemos ainda pedir ajuda a alguém, ou ficar perto de alguém que nos ajude a surfar a onda com mais segurança.
Em que é que a política contribui para a nossa felicidade?
Vivemos uma era em que se fala constantemente de felicidade e bem-estar, em que tudo gira à volta do sentir bem e do prazer, do “fast” e do imediato. Não é por acaso que se ouve e lê constantemente sobre propostas, serviços e empresas que promovem o bem-estar e a felicidade. Diria que somos privilegiados (em comparação com as gerações passadas) por haver já tanta informação e tantos estudos que nos explicam a melhor forma de atingir estados de satisfação, relaxamento, equilíbrio, e outros que nos explicam o processo e o porquê de sentirmos esse prazer (ou não) quando vivenciamos determinadas situações ou experienciamos determinadas coisas (a forma como o cérebro e os neurotransmissores funcionam quando se trata de termos prazer, ou dor, motivação ou falta de energia).
Esta busca de prazer e de felicidade aponta para uma certa individualidade, na medida em que cada um procura o que precisa para atingir e vivenciar esse estado de felicidade, de motivação, de energia. Mas não nos podemos esquecer que a felicidade só se atinge quando estamos em relação com os outros. E, por sua vez, dificilmente se experimenta felicidade se não tivermos alguém significativo perto de nós, em relação connosco, seja de forma mais ou menos próxima, mais ou menos profunda, mais ou menos formal.
O “World Happiness Report 2023” refere que uma forma natural de medir o bem-estar das pessoas é perguntar-lhes se estão satisfeitas com as suas vidas, mais do que perceber o que é que as faz sentir essa satisfação, já que essas causas podem ser muito variáveis (em função de características individuais, culturais, por exemplo). Importa ainda fazer mais duas questões: 1) como é que as pessoas podem adquirir as competências necessárias para promover o seu próprio bem-estar a longo prazo (ou sustentável) e 2) que hábitos, instituições e condições materiais produzem uma sociedade onde as pessoas têm um maior bem-estar?
O mesmo relatório refere que a identidade e o carácter de um país é importante, ou seja, as pessoas são dignas de confiança, generosas e apoiam-se mutuamente? Assim como as instituições também são importantes, ou seja, as pessoas têm liberdade para tomar decisões importantes na vida? E as condições materiais de vida são também de considerar, tanto o rendimento como a saúde.
Para atingir a felicidade é então necessário haver “bom carácter” (que a pessoa tenha bons valores e aja em conformidade) e meios externos suficientes, em termos materiais e/ou de suporte. Por outras palavras, e falando especialmente no “bom carácter”, são necessárias determinadas virtudes, como a honestidade, a capacidade de se relacionar com os outros e de estabelecer amizades, a moderação, o sentido de justiça, o exercício de uma cidadania exemplar. Então, para o caminho da felicidade, é necessária toda uma construção ao nível de virtudes individuais e de atitudes e comportamentos pró-sociais. E como se faz isto? Pois… Através de bons hábitos, bons exemplos, boas atitudes em prol dos outros. Trata-se de um caminho que exige muita dedicação e esforço, além de retidão e de (genuinamente) boas intenções.
O “World Happiness Report 2023” refere também que o desenvolvimento de comportamentos virtuosos necessita de um ambiente social e institucional de apoio para que possa resultar numa felicidade generalizada. Além disso, uma sociedade onde o cidadão médio exibe fortes virtudes e um elevado “bom carácter” será também uma sociedade onde o cidadão médio experimenta uma elevada satisfação com a vida. E para percebermos a veracidade nestas palavras, basta considerarmos até que ponto a nossa própria satisfação com a vida depende do comportamento e das atitudes dos outros. Assim, para termos uma sociedade com uma média de satisfação com a vida elevada, precisamos de uma sociedade com cidadãos virtuosos e com instituições que apoiem verdadeiramente. Ao nível da sociedade, estes dois termos andam de mãos dadas, ou seja, instituições eficazes apoiam o desenvolvimento do carácter; cidadãos virtuosos promovem instituições eficazes.
Ora, falando no nosso Portugal e da nossa gente, importa apelar a que todos reflitam sobre tudo o que tem vindo a acontecer na esfera política nos últimos anos. Temos tido demonstrações constantes de desonestidade, falta de transparência, desconsideração e desrespeito. Mas, e vendo aquilo que também de bom se faz no nosso país, não posso deixar de referir que temos um conjunto de exemplos muito positivos ao nível do tecido empresarial português, de competência, motivação, dedicação, atenção ao próximo, procurando cada vez mais contribuir para o bem-estar individual e familiar de cada colaborador.
Para o bem da nossa felicidade, resta apelar a que todos reflitam, em consciência e com sabedoria, quando surgir uma nova oportunidade para escolher quem vai para os lugares de poder e de decisão. É bom que sejam pessoas virtuosas, com “bom carácter”, sentido de missão (há muita casa para arrumar!) e dispostas a pensar no bem comum, não só no aqui e agora, mas também no futuro!

Referência: https://worldhappiness.report/ed/2023/
Ainda nos cabe a nós decidir e escolher
Antigamente, aquilo que o ser humano não conseguia compreender, ou era uma oportunidade futura para aplicação da razão, ou ficava no domínio do divino. Na era da inteligência artificial (IA) torna-se cada vez mais difícil prever como vai ser o futuro, uma vez que a velocidade e o grau de conhecimento aumenta exponencialmente, de tal forma que o ser humano não consegue acompanhar. Podemos não saber como vai ser, mas cabe-nos a nós, seres humanos, decidir como deve ser o futuro, moldando-o segundo os nossos valores.
Descartes dizia “penso, logo existo”. Se a IA “pensar”, ou estando próxima de o fazer, então quem seremos nós?
“A IA inaugurará um mundo em que as decisões serão tomadas de três formas básicas: por humanos (o que nos é familiar), por máquinas (o que começa a tornar-se familiar), e por genuína colaboração entre humanos e máquinas, e já não com mero auxílio de software convencional (o que não só não é familiar, como é inédito). A IA também está em vias de transformar as máquinas – o que, até hoje, eram ferramentas nossas – em parcerias. A IA receberá de nós cada vez menos instruções específicas sobre como atingir os objetivos que lhes estabelecemos. E cada vez mais estabeleceremos à IA objetivos ambíguos, para acabarmos por perguntar: <Com base nas tuas conclusões, como devemos fazer?>
Esta mudança não é em si mesma nem ameaçadora nem redentora. Mas é diferente a um grau bastante para que possamos julgar provável que venha a alterar as trajetórias das sociedades e o curso da história.”
Recentemente, Elon Musk e outros especialistas pediram uma pausa no desenvolvimento da IA, para que pudessem ser estudados os perigos e capacidades de sistemas como o Chat GPT-4. São os próprios fundadores e criadores de gigantes tecnológicas quem sugerem esta pausa. Na carta aberta que estes especialistas escreveram referem que “Nos últimos meses, os laboratórios de IA travaram uma corrida para desenvolver e implantar mentes digitais cada vez mais poderosas que ninguém – nem mesmo os seus criadores – conseguem entender, prever ou controlar de uma forma confiável. Sistemas poderosos de IA devem ser desenvolvidos apenas quando estamos confiantes de que os seus efeitos serão positivos”.
Sabemos que a IA veio para ficar e que nada será como dantes. Temos duas hipóteses, ou a aceitamos e aprendemos a lidar com ela e a utilizá-la de forma positiva e construtiva, ou a negamos e ficamos à parte daquela que é a (r)evolução dos tempos modernos. Mas não nos podemos esquecer que a IA não é capaz de “refletir” sobre as suas descobertas, nem “sentir” qualquer necessidade moral, pelo que o “significado” da sua ação é uma questão que fica para os humanos. Os humanos têm, portanto, de regulamentar e supervisionar a tecnologia.
Poderes e interesses à parte, por muito que se fale em profissões que irão desaparecer e em substituição dos humanos pelas máquinas em muitos aspectos, há funções que a IA nunca conseguirá assumir, nomeadamente aquelas que impliquem sentir, imaginar, ou colocar-se no lugar do outro. Assim, uma coisa é certa, uma das profissões ou áreas de futuro passará pela reflexão ética e regulamentação da IA, procurando garantir que a mesma não seja utilizada, pelos humanos, para fins negativos e nocivos à humanidade. Ainda nos cabe a nós escolher e decidir o que e como fazer!
Referências: “A Era da Inteligência Artificial E o Nosso Futuro Humano”, de Henry Kissinger, Eric Schmidt e Daniel Huttenlocher (2021); https://www.sabado.pt/ciencia—saude/detalhe/elon-musk-e-varios-especialistas-pedem-uma-pausa-na-inteligencia-artificial
“Tempo de pais e filhos” precisa-se!
Nos dias de hoje, o tema “tempo de ecrã” é recorrente em qualquer família.
E uma das coisas mais importantes para a saúde mental dos filhos é a qualidade da relação que têm com os seus pais, é ter “tempo de pais e filhos”!
“… porque passar tempo ao ar livre com os amigos leva a bons resultados para a saúde mental dos nossos filhos. Além disso, quando os adolescentes estão sozinhos nos seus quartos, não pode haver um “relacionamento” com outros membros da família, principalmente os pais. Uma das coisas mais importantes para a saúde mental dos nossos filhos é a relação que eles têm com os pais.”
“(…) Tire os seus filhos dos seus quartos (“bedroom”) e coloque-os na sala de estar (“family room”). A palavra “bedroom” começa com “bed” porque é onde dormimos. A palavra “family room” começa com “family”, que é onde as famílias deveriam estar para passarem tempo juntas. Comece a reintroduzir os seus filhos na sala de estar ou em qualquer outra divisão da sua casa onde se possam reunir e divertir.”
https://ifstudies.org/blog/5-tips-to-reclaim-your-family-from-screens
Reconciliar (com a vida ou com alguém) faz avançar

“Reconciliar é unir o que está separado, cancelar uma dívida, reconduzir à amizade os que estão distantes, fazer reencontrar a paz onde existe conflito. Reconciliação é evento de salvação para o mundo relacional do homem.” (p. 17)
“Como testemunhou e ensinou V. Frankl, as feridas abertas são, de facto, ocasião de dor, de ressentimento, de incompreensão, de perda de referências e do significado da vida; mas podem ser também ocasião de cura, de busca de sentido, de recriação de uma vida, ou seja, de reconciliação. Trata-se de manter e procurar uma presença no mundo de forma transfigurada ou ressuscitada.” (p. 272)
in “Busca de Sentido da Vida e Reconciliação Cristã”, Nuno Manuel Santos Almeida (2017)
Os filhos que temos hoje são os adultos (e pais) de amanhã
(Artigo escrito para o Observador, publicado a 17 Julho 2021)
Quando as mães e os pais são questionados sobre como gostariam que os seus filhos fossem no futuro, em que tipo de adultos gostariam que se tornassem, invariavelmente ouvimos respostas como: felizes, independentes, com bons empregos, com uma vida e família estáveis, com um marido/mulher que os respeitem, rodeados de bons amigos, honestos, socialmente aceites e bem integrados, amigos dos seus amigos, capazes de lidar com as dificuldades, capazes de tomar boas decisões, bem sucedidos, entre outras. São estes os adultos que os pais gostariam que os filhos fossem daqui a 10, 15 ou 20 anos. E a pergunta que se segue é, como é que os pais podem contribuir para que os filhos se venham a tornar neste tipo de adultos?
Desde que uma criança é pensada (desde que é um projeto, ou não, dos pais) até que se torne num adulto, todos os minutos contam; desde que nasce que já está a ser alvo de pensamentos, crenças, sentimentos e experiências que vão contribuir para o seu crescimento e vão moldar o adulto em que se vai tornar um dia. Uma criança que cresce rodeada de valores, exemplos e experiências como o amor, a generosidade, a empatia, a partilha, a responsabilidade, a honestidade, a dedicação, a resiliência, o respeito a si mesma e ao próximo, é uma forte candidata a tornar-se num adulto conforme descrito inicialmente. No fundo, uma criança é um pequeno grande projeto do qual depende o futuro de toda a sociedade e a humanidade.
Numa altura em que se fala tanto em saúde mental e psicológica, é importante relembrar que as crianças também experienciam emoções e sentimentos fortes e desafiantes desde tenra idade. Ao contrário do que muitas vezes os pais possam pensar, uma criança entre os 0 e os 3 anos já pode apresentar sinais de grande tristeza, frustração ou revolta, sendo que não tem ainda a capacidade de refletir e falar sobre isso, demonstrando-o através de comportamentos que são visíveis e os quais os pais serão os primeiros a ver (ex.: birras intensas, desânimo, falta de interação, agressividade). À medida que vão crescendo, as crianças vão ganhando capacidade para refletir sobre o que sentem, sendo que é fundamental que os pais, desde cedo, ensinem o vocabulário relacionado com as emoções e incentivem o diálogo sobre elas. Hoje em dia há muitos livros infantis que ajudam os pais a fazer este trabalho, contando histórias e fazendo pequenas atividades ou exercícios lúdicos que, ao mesmo tempo, contribuem para uma relação de proximidade entre pais e filhos.
Vigiar e contribuir para o desenvolvimento emocional e relacional das crianças é tão importante como o desenvolvimento ao nível físico, motor e cognitivo. Assim como é necessário perceber se a criança está a crescer em altura e em peso, a desenvolver competências motoras (como pegar num objeto ou andar), a introduzir os alimentos certos na sua dieta, a desenvolver a fala e a linguagem, também é importante perceber se está a desenvolver a capacidade de pedir ajuda, de querer experimentar fazer coisas sozinha, de ser autónoma, de respeitar regras, de explorar o que a rodeia, de distinguir o certo do errado, de se relacionar com outras crianças e adultos, de se importar com os outros, de querer ajudar, de falar sobre o que sente. A gestão emocional é a capacidade de saber identificar e gerir as emoções e, não sendo inata, é uma competência que tem de ser aprendida e treinada. E a partir de quando se pode fazer isso? Desde o nascimento da criança e ao longo da vida. Tudo o que os pais fazem, desde o estabelecimento das rotinas e de regras, à forma como falam, se comportam e interagem entre si e com os outros, à forma como se relacionam com a criança ou o adolescente, tudo está a contribuir para que possa ser, um dia, o adulto que projetaram (ou não).
E como podem os pais ajudar os filhos a fazerem as escolhas certas? Nenhum pai e nenhuma mãe gosta de ver os filhos sofrer e, por mais que tente, nunca conseguirá evitar que isso aconteça, seja em maior ou menor escala. É importante que as crianças e jovens percebam que a vida não são só alegrias e sucessos, que também existem tristezas e fracassos, sendo que a forma como se vive e enfrenta tudo isso vai ditar a sensação de maior ou menor felicidade e realização pessoal. As crianças que se sentem seguras, amadas e respeitadas, que sabem com o que contar e que têm modelos de referência afetivos positivos e consistentes, vão crescer de forma saudável e mais preparada para que um dia se tornem adultos com uma autoestima saudável e emocionalmente mais inteligentes. Não havendo uma fórmula infalível para o exercício da parentalidade, e estando este dependente de tantos fatores, há estratégias fundamentais que contribuem de forma positiva para que uma criança e jovem de hoje se torne num adulto pleno e psicologicamente saudável no futuro. Passar tempo de qualidade com os filhos, falar sobre emoções e sentimentos (positivos e negativos), mostrar interesse pelas coisas/vivências/situações dos filhos, ajudar os filhos a ver a realidade e as vivências com lentes positivas, ensinar a esperar (pelo momento certo), promover experiências positivas, saber dizer “não” no momento certo, ensinar que chorar é uma reação natural mediante diversas emoções ou sentimentos, estar disponível para ouvir, respeitar a natureza dos filhos e aceitá-los como são. É também importante os pais falarem com os filhos sobre o futuro, ensinarem a tirar partido da vida, a serem esperançosos e otimistas, dedicados e persistentes, a cuidarem de si próprios e a conhecerem-se.
No fundo, o maior desejo de qualquer ser humano é ser amado e sentir-se amado, sendo que o seu maior medo, aquilo que lhe causa maior sofrimento, é sentir-se rejeitado e não ser aceite pelo que é. A tarefa dos pais, de educar e orientar os filhos no seu crescimento, é, então, muito desafiante e de uma enorme responsabilidade. Afinal de contas, a próxima geração vai depender das crianças e adolescentes de hoje, que serão os adultos de amanhã, aos quais caberá a responsabilidade de educar a geração seguinte e assim sucessivamente.
Parentalidade após o divórcio (2)
O tipo de experiências repetidas proporcionado pelas figuras de vinculação à criança tem impacto no seu desenvolvimento e da sua personalidade, na medida em que vai influenciar a construção da imagem de si própria e do mundo, a regulação das emoções e o desenvolvimento de competências cognitivas, de autoconfiança e de resolução de problemas, entre outras. A qualidade da relação e da interação da criança com a figura parental, e consequentemente a qualidade do vínculo, é influenciada por diversos fatores, nomeadamente pelo ambiente familiar, pelas características individuais da criança e dos pais, entre outros.
O desenvolvimento da criança não é linear, pelo que o que é adequado e importante assegurar hoje, não é necessariamente o mais ajustado daqui a um ou dois anos. O tempo da criança não é o tempo dos pais. E o tempo de cada um dos pais também difere.
A separação/divórcio é um dos maiores causadores de stress e de sofrimento na vida de uma pessoa. É importante que cada um tenha oportunidade de fazer o seu luto, de se adaptar à nova condição, de se reorganizar. São processos individuais e dolorosos e muitas vezes implicam o recurso a ajuda profissional, sendo fundamental que pai e mãe respeitem o processo de luto um do outro, adotando uma atitude de cooperação no que respeita aos filhos. No caso de se decidir por uma residência alternada, é fundamental que haja a confiança e o apoio um do outro para que os cuidados à criança sejam prestados por ambos os pais de forma adequada, cada um à sua maneira, na sua casa. Além disso, é necessário não esquecer o processo de luto da criança, que também tem o seu próprio ritmo e especificidades, sendo fundamental que se sinta segura, amada e protegida por ambos os pais.
O exercício da parentalidade em contexto de conflito é dificultada principalmente pela carga emocional negativa existente entre os pais. Se não tivessem filhos em comum, a separação/divórcio podia implicar um corte definitivo entre ambos, não havendo necessidade de falar um com o outro novamente (a partir do momento em que o processo de divórcio ficasse resolvido). No entanto, havendo filhos em comum, esse corte definitivo, e assumindo que o melhor para a criança é continuar a ter ambos os pais na sua vida, o ex-casal tem necessariamente de manter uma relação. Relação esta que deverá ser exclusivamente motivada pelas responsabilidades parentais e pela relação pai-filhos/mãe-filhos. A dificuldade é não permitir que a carga emocional negativa, que agora é menos tolerável do que quando tinham um projeto de vida em conjunto, interfira na relação parental que deverão manter. Os pais divorciam-se, mas as crianças não se divorciam dos pais, passando a ser o (único) elo de ligação entre ambos.
Parentalidade após o divórcio (1)
Quando os pais se separam, a definição do modelo de residência alternada ou conjunta deve ter em consideração diversos fatores. Não há UM modelo ideal, sendo que, seja qual for o modelo definido, deverá garantir o bem-estar da criança. Este “bem-estar” implica o sentimento de segurança e de amor incondicional por parte da mãe e do pai, independentemente do tempo que passam juntos, não tendo que se ver “obrigada” a ter de escolher um em detrimento do outro. Seja qual for o modelo, o importante é que a criança se sinta protegida e amada por ambos os pais e tenha a liberdade para poder relacionar-se com cada um, sem que isso traga inseguranças, sentimentos de culpa, conflitos de lealdade, entre outros sentimentos negativos.
Idealmente, todas as crianças deverão ter a possibilidade de ter contacto e de crescer com o pai e a mãe, sendo estes responsáveis pela proteção e pelo desenvolvimento dos filhos. O exercício da parentalidade implica a criação de vínculos e de relação com os filhos, sendo os pais e a família alargada, como um todo, responsáveis pela estruturação psicossocial da criança (através dos seus valores, princípios, cultura familiar). Cada ser humano, cada criança, além da parte biológica, tem uma herança relativa às experiências vividas no contexto familiar e que vai influenciar a formação da sua própria personalidade, a sua capacidade de se relacionar com os outros, de comunicar, de tomar decisões, de enfrentar ou gerir as adversidades.
O processo de separação/divórcio representa para a criança uma experiência muito stressante a curto, médio e longo prazo. Os filhos querem ambos os pais nas suas vidas, querem sentir-se amados, seguros e protegidos. Não é o divórcio ou a rutura em si mesma que determina as alterações nas crianças, mas sim as variáveis que acompanham a rutura familiar e que continuam a atualizar-se na dinâmica que se cria posteriormente. Uma situação de separação/divórcio implica uma mudança estrutural na família, fazendo surgir um conjunto de emoções, pensamentos e crenças que necessitam de ser geridas, quer pelos pais, quer pela criança. As mudanças que surgem não são só as que são visíveis, como a habitação e bens materiais, sendo também necessário haver a integração e aceitação de uma nova estrutura e conceito familiares.
Falhas ou ruturas do contexto conjugal e familiar conduzem ao aparecimento de situações conflituosas entre os adultos que, inevitavelmente, acabam por afetar a criança. O importante é não esquecer quais são as verdadeiras necessidades da criança e não permitir que o contexto ex-conjugal interfira negativamente com o contexto parental e o contexto paterno-filial. Na verdade, deixa de existir um casal, uma relação conjugal, mas havendo filhos, para o bem destes, deverá manter-se uma relação parental saudável e colaborante e respeitar a necessidade de preservar os vínculos afetivos estruturantes da criança, de forma a assegurar o seu desenvolvimento psíquico e emocional saudáveis.


