O “passenger mode” e o futuro emocional e relacional de uma geração

Há fenómenos que só percebemos verdadeiramente quando começamos a ver o seu eco na vida adulta, não apenas na identidade individual, mas também na vida a dois. O “passenger mode” é um deles.

Foi ao ler o artigo The Teen-Disengagement Crisis (The Atlantic, 2025) que conheci a expressão “passenger mode”, que me ficou gravada e deu nome a muito do que vejo hoje em dia: adolescentes que deixam de se ver como protagonistas da própria aprendizagem e passam a ocupar um lugar passivo, quase anestesiado, no seu percurso escolar e no seu desenvolvimento. Deixam-se ir no lugar do passageiro…

Não é um fenómeno novo, mas está a tornar-se demasiado frequente para ser ignorado. E, na verdade, no meu trabalho vejo o que acontece quando este desligamento não é travado a tempo.

Faço aqui uma reflexão dividida em cinco partes: o que está a acontecer, o reflexo disso que vejo na minha prática clínica, o que potencia este fenómeno, o que falta aos adolescentes de hoje e o que podemos fazer.

1. O silêncio que se instala

O artigo descreve algo que muitos professores, psicólogos e pais reconhecem: por volta do 7.º ou 8.º ano, o interesse pela aprendizagem cai abruptamente. Não é apenas desmotivação escolar, é uma espécie de retração existencial. Uma sensação de que “não vale a pena”, “não faz diferença”, “não sou bom o suficiente”.

Jonathan Haidt tem vindo a alertar para isto há anos. A combinação de hiperexposição digital, redução da autonomia real e aumento da ansiedade criou uma geração que vive mais no ecrã do que no mundo, mais na comparação do que na experiência, mais no medo do erro do que na curiosidade. Este psiquiatra e autor do livro A Geração Ansiosa refere mesmo que a ansiedade é o preço a pagar por uma infância vivida sem riscos (dentro daquilo que é esperado e saudável que uma criança experiencie) e que é fundamental preparar a criança para fazer o seu caminho, e não preparar o caminho para a criança o fazer.

Em Portugal, os dados confirmam esta tendência:

  • O relatório PISA 2022, referenciado no “Monitor da Educação e da Formação de 2025”, mostrou que Portugal teve uma das maiores quedas de sempre em literacia matemática e científica, acompanhada por um aumento significativo de ansiedade escolar.
  • A OCDE, no estudo Child, Adolescent and Youth Mental Health in the 21st Century, identificou que Portugal é um dos países onde a pressão académica e o mal-estar emocional dos adolescentes mais se destacam. Entre os dados mais gritantes está a evolução da percentagem de jovens de 15 anos que relatam sentimentos de tristeza ou desesperança.
  • O estudo Health Behaviour in School-aged Children (2022) revelou que os adolescentes portugueses estão entre os que mais referem sentir-se cansados, desmotivados e emocionalmente sobrecarregados.

Não é difícil perceber porque é que tantos entram em “passenger mode”.

2. O reflexo do “passenger mode” que vejo na minha prática clínica

Enquanto psicóloga de jovens adultos e casais, vejo o prolongamento deste fenómeno e isto manifesta-se de formas muito concretas:
  • Os jovens adultos têm muita dificuldade em tomar decisões, não por falta de inteligência, mas por falta de prática. Cresceram a cumprir, não a decidir, o que faz com que, entrando na vida adulta, vivam com muita ansiedade e angústia os momentos em que têm de fazer escolhas, tendo muito medo de errar. Ouço frequentemente frases como “tenho medo de tomar decisões”, “não sei o que quero”, “não quero falhar, por isso não tento”.
  • Muitos adultos vivem em piloto automático, ou seja, até podem ser profissionalmente competentes, mas estão emocionalmente desligados, caindo no desânimo e na falta de propósito. Sabem fazer, mas não sabem porquê.
  • As relações são marcadas por evitamento ou dependência. Os jovens não aprenderam a pedir, a negociar, a ajustar ou a reparar emocionalmente. Têm medo de se mostrar vulneráveis e não aprofundam verdadeiramente as ligações emocionais, ficando mais na superficialidade (“é mais seguro”). A psicóloga Esther Perel refere que a qualidade das nossas relações determina a nossa qualidade de vida. Fala de “inteligência relacional” e em como ninguém nasce com esta competência, tendo de ser treinada, construída, experimentada. Mas um adolescente em “passenger mode não experimenta, cumpre ou deixa-se ir. E cumprir ou deixar-se ir não é o mesmo que viver.
  • Casais que não sabem discutir sem se magoar, porque nunca aprenderam a tolerar desconforto, a sustentar um conflito ou a defender um ponto de vista sem medo de rejeição.

3. O que está na raiz do “passenger mode”?

Não é preguiça, nem falta de valores. Não é “a geração mais frágil de sempre” ou “menos capaz” ou que “não quer saber”. É um conjunto de fatores que acabam por se reforçar mutuamente. São as escolas sobrecarregadas, com currículos extensos e pouca margem para a criatividade. São as famílias exaustas, com menos tempo, mais pressão e mais ansiedade. É uma sociedade acelerada, que valoriza desempenho e visibilidade, promove mais o “ter” do que o “ser”, em detrimento da profundidade e da autenticidade. São os ambientes digitais que aprisionam a atenção, aumentam a comparação e reduzem a tolerância à frustração. É a incapacidade de abrandar, o medo constante de perder algo, que nos mantém num estado de hiperestimulação que anestesia mais do que nos entusiasma. É a falta de espaço para a autonomia real, para errar, experimentar, questionar.

Jonathan Haidt resume isto de forma simples “estamos a criar adolescentes seguros demais para arriscar e ansiosos demais para agir.”

4. O que falta, então, aos adolescentes e jovens?

Aquilo que falta aos adolescentes e jovens de hoje são competências que, quando ausentes, reaparecem como fragilidades na vida adulta e nas relações: autonomia, propósito e gosto pelo desafio.

Falta autonomia, não para fazerem o que quiserem, mas para terem espaço para decidir e para se responsabilizarem e lidarem com as consequências.

Falta propósito, não para serem os maiores e alimentarem a ânsia de TER mais, mas para darem sentido à sua vida, motivando-se para SER mais, tornando-se cada vez melhores pessoas, contribuindo para um mundo melhor.

Falta o gosto pelo desafio e pelo questionamento. A curiosidade é uma das competências que mais falta faz aos adolescentes de hoje. A curiosidade desenvolve pensamento crítico e resiliência e é um motor para a vida adulta, permite-nos avançar e evoluir.

5. E qual é o nosso papel? O que podemos fazer enquanto família, escola e sociedade?

Mais do que o que devemos fazer, é necessário pensar que tipo de presença queremos ser na vida dos adolescentes que crescem connosco. Porque eles não precisam de mais regras, nem de mais discursos e instruções. Precisam de adultos que lhes mostrem o mundo como um lugar seguro, curioso e onde é possível ser feliz.

Precisam de sentir autonomia, não como independência precoce descontrolada, mas como um espaço real para experimentar, testar limites, errar sem serem esmagados pela culpa ou pela vergonha. A autonomia não se ensina aos 18 anos, mas sim desde pequenos, nos momentos em que confiamos antes de controlar.

Precisam de ambientes onde a segurança emocional é real e não um “cliché”. Lugares onde o vínculo vale mais do que o desempenho, onde a relação vem antes da exigência. Como diz Jane Nelson, autora da disciplina positiva, “connect then correct”, pois a aprendizagem nasce da conexão, do encontro, e não do medo.

Precisam que falemos de futuro com abertura e flexibilidade, e não como um destino fechado e rígido. O futuro não é um lugar que fica no fundo do caminho, é um horizonte para o qual os adolescentes só querem navegar quando se sentem livres e sem medo de julgamentos e de crítica.

Precisam de silêncio, de pausa e até de tédio. Não diabolizando a tecnologia, que traz muitos benefícios, numa era em que a atenção dos adolescentes é roubada a cada segundo, o maior presente que lhes podemos dar é espaço mental, para que possam ouvir-se e descobrir-se a si próprios.

Precisam que valorizemos o processo e não apenas o resultado. E que bom que é usufruirmos do processo, valorizando as pequenas conquistas e aprendendo com o que corre menos bem.

E precisam de escolas que tenham tempo, equipas educativas e condições para ensinar e educar com sentido. Sem segurança emocional, não há aprendizagem efetiva.

Concluindo, o adolescente que hoje vive em “passenger mode” é o jovem adulto que amanhã tem medo de arriscar, evita decisões, duvida do seu valor, entra em relações com insegurança e sente que a vida “lhe acontece”.

É urgente devolver aos jovens a sensação de que são protagonistas da própria vida. A felicidade, como lembra Arthur Brooks, depende de agir e não de esperar que a vida aconteça. E o “passenger mode” é precisamente a perda desta ação.

O desconforto faz parte e é essencial para o crescimento emocional. Não é por acaso que se fala em “dores de crescimento”. Crescer dói, mas ficar preso e não crescer dói muito mais.

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Eu sou a mãe… E quando os filhos vão para casa do pai?

Após uma separação/divórcio existe uma fase de adaptação e de (re)descoberta para todos os elementos envolvidos (pais e filhos).

Muitas mães partilham a sua dificuldade em estar sozinhas, sem os filhos, quando estes ficam em casa do pai. Nessas alturas, principalmente numa fase inicial pós-divórcio, experimentam sentimentos de solidão, frustração, revolta, injustiça, entre outros, acabando por não saber passar esse tempo sozinhas (tempo esse que muitas vezes parece interminável…), permanecendo num grande sofrimento.

Nessas alturas em que as mães estão sem os filhos, e de forma a poderem passar melhor esse tempo:

1. Evitem o autocriticismo e a auto-culpabilização: a separação/divórcio não é, por si só, traumatizante para as crianças. Aquilo que pode marcar mais negativamente o desenvolvimento e o bem-estar das crianças são as dinâmicas que existiam antes do divórcio e após o divórcio, sendo fundamental que, mesmo separados, os pais consigam manter uma relação cordial e de cooperação. O mais importante é os filhos sentirem os pais bem e disponíveis para eles.

2. Aprendam a gostar e a aproveitar o “me time: há muitas coisas que nunca teriam a oportunidade de fazer com a presença dos filhos. Façam planos, identifiquem coisas que gostariam (e precisam) de fazer e que podem concretizá-las no tempo em que os filhos não estão.

3. Não se culpabilizem, gostar do “me time” não é sinónimo de egoísmo: só porque gostam de estar sem os seus filhos e conseguem ser felizes nesses momentos, não significa que sejam menos boas mães. É muito importante que as mães se sintam bem, que façam o que gostam e se sintam realizadas. Só assim poderão ter disponibilidade psicológica e emocional para lidar com os desafios da educação dos filhos e de uma coparentalidade saudável. E quando os filhos veem os pais felizes, eles próprios são mais felizes e adaptados.

4. Sejam flexíveis na gestão de agendas: por vezes surgem imprevistos ou situações/oportunidades de última hora, pelo que quando o pai pede para que a mãe fique com os filhos, mesmo não sendo “a sua vez”, sejam flexíveis. Assim, quando for a vez das mães para pedir essa alteração, poderão ter mais facilmente essa disponibilidade por parte dos pais (ou não… mas nesses momentos há que lembrar que é o interesse e o bem-estar das crianças que deve falar mais alto, além de que nada deve impedir de ter a atitude certa).

5. Aproveitem o tempo em que têm os filhos em casa: juntos ou separados, há pais que têm pouco tempo para estar com os filhos (por razões profissionais, por exemplo). O mais importante é aproveitar o tempo que têm com eles, em vez de se lamentarem e de ficarem a antecipar a ansiedade e o sofrimento que poderão sentir quando forem para casa do pai. Além disso, as relações afetivas próximas e positivas entre pais e filhos constroem-se numa base diária, através das rotinas e das mais pequenas coisas, pelo que nunca desperdicem a oportunidade de proporcionar experiências e memórias positivas aos filhos.

6. Lembrem-se que o pai é importante para os filhos e que, juntos, podem trabalhar em equipa: independentemente do tipo de relação e de proximidade que os filhos tinham com o pai antes da separação/divórcio, todos os filhos merecem e precisam de ter o carinho e o acompanhamento de ambos os pais. Quanto melhor os filhos estiverem com o pai, mais descansada e confiante poderá ficar a mãe, podendo também aproveitar melhor o seu tempo e investir em si mesma, no seu bem-estar.

“Tempo de pais e filhos” precisa-se!

Nos dias de hoje, o tema “tempo de ecrã” é recorrente em qualquer família.
E uma das coisas mais importantes para a saúde mental dos filhos é a qualidade da relação que têm com os seus pais, é ter “tempo de pais e filhos”!

“… porque passar tempo ao ar livre com os amigos leva a bons resultados para a saúde mental dos nossos filhos. Além disso, quando os adolescentes estão sozinhos nos seus quartos, não pode haver um “relacionamento” com outros membros da família, principalmente os pais. Uma das coisas mais importantes para a saúde mental dos nossos filhos é a relação que eles têm com os pais.”

“(…) Tire os seus filhos dos seus quartos (“bedroom”) e coloque-os na sala de estar (“family room”). A palavra “bedroom” começa com “bed” porque é onde dormimos. A palavra “family room” começa com “family”, que é onde as famílias deveriam estar para passarem tempo juntas. Comece a reintroduzir os seus filhos na sala de estar ou em qualquer outra divisão da sua casa onde se possam reunir e divertir.”

 

https://ifstudies.org/blog/5-tips-to-reclaim-your-family-from-screens

Os filhos que temos hoje são os adultos (e pais) de amanhã

(Artigo escrito para o Observador, publicado a 17 Julho 2021)

 

Quando as mães e os pais são questionados sobre como gostariam que os seus filhos fossem no futuro, em que tipo de adultos gostariam que se tornassem, invariavelmente ouvimos respostas como: felizes, independentes, com bons empregos, com uma vida e família estáveis, com um marido/mulher que os respeitem, rodeados de bons amigos, honestos, socialmente aceites e bem integrados, amigos dos seus amigos, capazes de lidar com as dificuldades, capazes de tomar boas decisões, bem sucedidos, entre outras. São estes os adultos que os pais gostariam que os filhos fossem daqui a 10, 15 ou 20 anos. E a pergunta que se segue é, como é que os pais podem contribuir para que os filhos se venham a tornar neste tipo de adultos?

Desde que uma criança é pensada (desde que é um projeto, ou não, dos pais) até que se torne num adulto, todos os minutos contam; desde que nasce que já está a ser alvo de pensamentos, crenças, sentimentos e experiências que vão contribuir para o seu crescimento e vão moldar o adulto em que se vai tornar um dia. Uma criança que cresce rodeada de valores, exemplos e experiências como o amor, a generosidade, a empatia, a partilha, a responsabilidade, a honestidade, a dedicação, a resiliência, o respeito a si mesma e ao próximo, é uma forte candidata a tornar-se num adulto conforme descrito inicialmente. No fundo, uma criança é um pequeno grande projeto do qual depende o futuro de toda a sociedade e a humanidade.

Numa altura em que se fala tanto em saúde mental e psicológica, é importante relembrar que as crianças também experienciam emoções e sentimentos fortes e desafiantes desde tenra idade. Ao contrário do que muitas vezes os pais possam pensar, uma criança entre os 0 e os 3 anos já pode apresentar sinais de grande tristeza, frustração ou revolta, sendo que não tem ainda a capacidade de refletir e falar sobre isso, demonstrando-o através de comportamentos que são visíveis e os quais os pais serão os primeiros a ver (ex.: birras intensas, desânimo, falta de interação, agressividade). À medida que vão crescendo, as crianças vão ganhando capacidade para refletir sobre o que sentem, sendo que é fundamental que os pais, desde cedo, ensinem o vocabulário relacionado com as emoções e incentivem o diálogo sobre elas. Hoje em dia há muitos livros infantis que ajudam os pais a fazer este trabalho, contando histórias e fazendo pequenas atividades ou exercícios lúdicos que, ao mesmo tempo, contribuem para uma relação de proximidade entre pais e filhos.

Vigiar e contribuir para o desenvolvimento emocional e relacional das crianças é tão importante como o desenvolvimento ao nível físico, motor e cognitivo. Assim como é necessário perceber se a criança está a crescer em altura e em peso, a desenvolver competências motoras (como pegar num objeto ou andar), a introduzir os alimentos certos na sua dieta, a desenvolver a fala e a linguagem, também é importante perceber se está a desenvolver a capacidade de pedir ajuda, de querer experimentar fazer coisas sozinha, de ser autónoma, de respeitar regras, de explorar o que a rodeia, de distinguir o certo do errado, de se relacionar com outras crianças e adultos, de se importar com os outros, de querer ajudar, de falar sobre o que sente. A gestão emocional é a capacidade de saber identificar e gerir as emoções e, não sendo inata, é uma competência que tem de ser aprendida e treinada. E a partir de quando se pode fazer isso? Desde o nascimento da criança e ao longo da vida. Tudo o que os pais fazem, desde o estabelecimento das rotinas e de regras, à forma como falam, se comportam e interagem entre si e com os outros, à forma como se relacionam com a criança ou o adolescente, tudo está a contribuir para que possa ser, um dia, o adulto que projetaram (ou não).

Vivemos numa era em que o individualismo e o imediatismo impera e em que há uma busca desenfreada da felicidade, do “bem-estar” (no sentido de a pessoa se sentir bem, de experimentar coisas que a fazem sentir prazer). No polo oposto temos o medo da frustração, da vida sem sentido, da culpa, do aborrecimento, do fracasso. Este ambiente cultural em que vivemos está também a contribuir para a formação das crianças e jovens de hoje, em que se procura tudo o que faz sentir bem e se tenta evitar tudo o que faz sentir mal. A vida de cada um está sujeita a um tempo histórico e cultural que, por si só, nos proporciona um conjunto de experiências e desafios (pessoais e sociais), positivos e negativos, que não podemos controlar. Podemos, sim, escolher como lidar com isso, mediante as ferramentas que vamos adquirindo ao longo do crescimento enquanto pessoas. Assim, podemos escolher entre amar e odiar, enfrentar os problemas ou evitá-los, enfrentar o sofrimento ou evitá-lo, respeitar ou conflituar, construir ou destruir, esperar ou agir por impulso.

E como podem os pais ajudar os filhos a fazerem as escolhas certas? Nenhum pai e nenhuma mãe gosta de ver os filhos sofrer e, por mais que tente, nunca conseguirá evitar que isso aconteça, seja em maior ou menor escala. É importante que as crianças e jovens percebam que a vida não são só alegrias e sucessos, que também existem tristezas e fracassos, sendo que a forma como se vive e enfrenta tudo isso vai ditar a sensação de maior ou menor felicidade e realização pessoal. As crianças que se sentem seguras, amadas e respeitadas, que sabem com o que contar e que têm modelos de referência afetivos positivos e consistentes, vão crescer de forma saudável e mais preparada para que um dia se tornem adultos com uma autoestima saudável e emocionalmente mais inteligentes. Não havendo uma fórmula infalível para o exercício da parentalidade, e estando este dependente de tantos fatores, há estratégias fundamentais que contribuem de forma positiva para que uma criança e jovem de hoje se torne num adulto pleno e psicologicamente saudável no futuro. Passar tempo de qualidade com os filhos, falar sobre emoções e sentimentos (positivos e negativos), mostrar interesse pelas coisas/vivências/situações dos filhos, ajudar os filhos a ver a realidade e as vivências com lentes positivas, ensinar a esperar (pelo momento certo), promover experiências positivas, saber dizer “não” no momento certo, ensinar que chorar é uma reação natural mediante diversas emoções ou sentimentos, estar disponível para ouvir, respeitar a natureza dos filhos e aceitá-los como são. É também importante os pais falarem com os filhos sobre o futuro, ensinarem a tirar partido da vida, a serem esperançosos e otimistas, dedicados e persistentes, a cuidarem de si próprios e a conhecerem-se.

No fundo, o maior desejo de qualquer ser humano é ser amado e sentir-se amado, sendo que o seu maior medo, aquilo que lhe causa maior sofrimento, é sentir-se rejeitado e não ser aceite pelo que é. A tarefa dos pais, de educar e orientar os filhos no seu crescimento, é, então, muito desafiante e de uma enorme responsabilidade. Afinal de contas, a próxima geração vai depender das crianças e adolescentes de hoje, que serão os adultos de amanhã, aos quais caberá a responsabilidade de educar a geração seguinte e assim sucessivamente.

Os filhos que temos hoje são os adultos (e pais) de amanhã

 

Parentalidade após o divórcio (2)

O tipo de experiências repetidas proporcionado pelas figuras de vinculação à criança tem impacto no seu desenvolvimento e da sua personalidade, na medida em que vai influenciar a construção da imagem de si própria e do mundo, a regulação das emoções e o desenvolvimento de competências cognitivas, de autoconfiança e de resolução de problemas, entre outras. A qualidade da relação e da interação da criança com a figura parental, e consequentemente a qualidade do vínculo, é influenciada por diversos fatores, nomeadamente pelo ambiente familiar, pelas características individuais da criança e dos pais, entre outros.

O desenvolvimento da criança não é linear, pelo que o que é adequado e importante assegurar hoje, não é necessariamente o mais ajustado daqui a um ou dois anos. O tempo da criança não é o tempo dos pais. E o tempo de cada um dos pais também difere.

A separação/divórcio é um dos maiores causadores de stress e de sofrimento na vida de uma pessoa. É importante que cada um tenha oportunidade de fazer o seu luto, de se adaptar à nova condição, de se reorganizar. São processos individuais e dolorosos e muitas vezes implicam o recurso a ajuda profissional, sendo fundamental que pai e mãe respeitem o processo de luto um do outro, adotando uma atitude de cooperação no que respeita aos filhos. No caso de se decidir por uma residência alternada, é fundamental que haja a confiança e o apoio um do outro para que os cuidados à criança sejam prestados por ambos os pais de forma adequada, cada um à sua maneira, na sua casa. Além disso, é necessário não esquecer o processo de luto da criança, que também tem o seu próprio ritmo e especificidades, sendo fundamental que se sinta segura, amada e protegida por ambos os pais.

O exercício da parentalidade em contexto de conflito é dificultada principalmente pela carga emocional negativa existente entre os pais. Se não tivessem filhos em comum, a separação/divórcio podia implicar um corte definitivo entre ambos, não havendo necessidade de falar um com o outro novamente (a partir do momento em que o processo de divórcio ficasse resolvido). No entanto, havendo filhos em comum, esse corte definitivo, e assumindo que o melhor para a criança é continuar a ter ambos os pais na sua vida, o ex-casal tem necessariamente de manter uma relação. Relação esta que deverá ser exclusivamente motivada pelas responsabilidades parentais e pela relação pai-filhos/mãe-filhos. A dificuldade é não permitir que a carga emocional negativa, que agora é menos tolerável do que quando tinham um projeto de vida em conjunto, interfira na relação parental que deverão manter. Os pais divorciam-se, mas as crianças não se divorciam dos pais, passando a ser o (único) elo de ligação entre ambos.

Parentalidade após o divórcio (1)

Quando os pais se separam, a definição do modelo de residência alternada ou conjunta deve ter em consideração diversos fatores. Não há UM modelo ideal, sendo que, seja qual for o modelo definido, deverá garantir o bem-estar da criança. Este “bem-estar” implica o sentimento de segurança e de amor incondicional por parte da mãe e do pai, independentemente do tempo que passam juntos, não tendo que se ver “obrigada” a ter de escolher um em detrimento do outro. Seja qual for o modelo, o importante é que a criança se sinta protegida e amada por ambos os pais e tenha a liberdade para poder relacionar-se com cada um, sem que isso traga inseguranças, sentimentos de culpa, conflitos de lealdade, entre outros sentimentos negativos.

Idealmente, todas as crianças deverão ter a possibilidade de ter contacto e de crescer com o pai e a mãe, sendo estes responsáveis pela proteção e pelo desenvolvimento dos filhos. O exercício da parentalidade implica a criação de vínculos e de relação com os filhos, sendo os pais e a família alargada, como um todo, responsáveis pela estruturação psicossocial da criança (através dos seus valores, princípios, cultura familiar). Cada ser humano, cada criança, além da parte biológica, tem uma herança relativa às experiências vividas no contexto familiar e que vai influenciar a formação da sua própria personalidade, a sua capacidade de se relacionar com os outros, de comunicar, de tomar decisões, de enfrentar ou gerir as adversidades.

O processo de separação/divórcio representa para a criança uma experiência muito stressante a curto, médio e longo prazo. Os filhos querem ambos os pais nas suas vidas, querem sentir-se amados, seguros e protegidos. Não é o divórcio ou a rutura em si mesma que determina as alterações nas crianças, mas sim as variáveis que acompanham a rutura familiar e que continuam a atualizar-se na dinâmica que se cria posteriormente. Uma situação de separação/divórcio implica uma mudança estrutural na família, fazendo surgir um conjunto de emoções, pensamentos e crenças que necessitam de ser geridas, quer pelos pais, quer pela criança. As mudanças que surgem não são só as que são visíveis, como a habitação e bens materiais, sendo também necessário haver a integração e aceitação de uma nova estrutura e conceito familiares.

Falhas ou ruturas do contexto conjugal e familiar conduzem ao aparecimento de situações conflituosas entre os adultos que, inevitavelmente, acabam por afetar a criança. O importante é não esquecer quais são as verdadeiras necessidades da criança e não permitir que o contexto ex-conjugal interfira negativamente com o contexto parental e o contexto paterno-filial. Na verdade, deixa de existir um casal, uma relação conjugal, mas havendo filhos, para o bem destes, deverá manter-se uma relação parental saudável e colaborante e respeitar a necessidade de preservar os vínculos afetivos estruturantes da criança, de forma a assegurar o seu desenvolvimento psíquico e emocional saudáveis.

 

Sentimentos para “debaixo do tapete”? Não!

As crianças não fazem o que nós dizemos, fazem o que nós fazemos.

Ser pai/mãe é capaz de ser dos maiores desafios que algum ser humano pode encontrar e poderá ser a melhor forma de nos ensinar que o ser humano sente antes de pensar e que as crianças têm muito mais que ver com sentimentos do que com qualquer outra coisa.

“Um bebé é sentimento puro – um feixe de sentimentos, por assim dizer. Nem sempre compreendemos tudo o que os bebés sentem, por vezes temos de os acalmar durante muito tempo antes de eles ficarem calmos, mas é através de todo esse trabalho que fazemos com amor que construímos os alicerces da saúde emocional futura dos nossos filhos.”

Ignorar ou negar os sentimentos de uma criança pode prejudicar a sua saúde emocional futura. Perante sentimentos negativos dos filhos, a primeira reação dos pais poderá ser de negação, distração desses sentimentos, como se isso fosse resolver o sofrimento deles. Nenhum pai ou mãe gosta de ver os seus filhos tristes, ou zangados, ninguém gosta de ver sofrer as pessoas que ama. Mas enquanto não confrontarmos os sentimentos, estes não desaparecem, ficam escondidos, “debaixo do tapete”, para um dia mais tarde voltarem a sair do seu esconderijo, provavelmente ainda mais “fortes”, causando problemas maiores. “Pense nisto: quando precisa de gritar mais alto? É quando não é ouvido. Os sentimentos precisam de ser ouvidos.”

É muito importante que os pais percebam (sem ser necessário acrescentar sentimentos de culpa) que uma das causas mais comuns da depressão no adulto não é o que lhe está a acontecer no momento presente, mas o facto de não ter aprendido, através da relação com os seus pais, como podia ser apaziguado. “Se, em vez de ser compreendido e reconfortado, o indivíduo viu os seus sentimentos desvalorizados, ou chorou sozinho até adormecer, ou ficou entregue a si próprio com a sua raiva, a capacidade que tinha para tolerar emoções desagradáveis ou dolorosas foi diminuindo à medida que as dissonâncias emocionais se acumulavam.

Digamos que o espaço onde esconder emoções difíceis é limitado; a certa altura, fica demasiado cheio, e as emoções já não têm para onde ir. Quando somos apaziguados, uma e outra vez, pelos nossos pais, tornamo-nos mais otimistas em relação aos nossos sentimentos, sejam eles quais forem, o que nos deixa menos vulneráveis à depressão e à ansiedade ao longo da vida.” E sendo a tarefa da parentalidade tão difícil – afinal de contas estamos a preparar os adultos de amanhã – “todos os pais cometem erros, e corrigi-los é mais importante do que os erros propriamente ditos.”

Quanto melhor aceitarmos e exprimirmos os nossos sentimentos e quanto melhor nos soubermos apaziguar, mais disponíveis ficamos para ser recipientes para os sentimentos dos nossos filhos, aceitando e validando aquilo que eles sentem, ajudando-os e ensinando-os a gerir os seus próprios sentimentos, para que um dia também se saibam apaziguar.

 

Referência: “O livro que gostaria que os seus pais tivessem lido (e que os seus filhos agradecem que leia também)”, Philippa Perry (2020), pp. 69-83.