Como trabalho com as emoções?

A mudança começa quando damos espaço ao que sentimos

Acredito que cada pessoa tem dentro de si uma essência, aquilo que surge quando conseguimos contactar com o que é mais autêntico, pleno e verdadeiro. O contacto com a nossa essência, como o nosso Eu mais puro, surge depois de compreendermos e aceitarmos os lugares emocionais onde nos encontramos e deixarmos cair as barreiras, as máscaras e o ruído que a vida nos impôs. É essa essência que procuramos (re)encontrar ao longo do processo terapêutico, não como ponto de partida, mas como destino possível quando nos aproximamos das nossas emoções com verdade e autenticidade.

Trabalhar com emoções não é apenas compreendê‑las racionalmente. É permitir que elas se revelem tal como são, com a sua intensidade, a sua história e a sua necessidade. A aceitação é sempre o primeiro passo: olhar para a emoção sem julgamento, reconhecer o que ela traz, perceber o que procura proteger ou sinalizar. Só quando uma emoção é verdadeiramente acolhida é que se torna possível transformá‑la. E essa transformação (que não é substituição, porque não mandamos naquilo que sentimos) acontece sempre através de outra emoção. Não mudamos medo com lógica, mas com segurança. Não mudamos vergonha com argumentos, mas com compaixão. Não mudamos solidão com explicações, mas com ligação. É este encontro entre a emoção antiga e uma nova experiência emocional que permite que o corpo aprenda algo diferente e que a pessoa comece a responder ao mundo de forma mais livre, sem ficar preso a emoções difíceis desencadeadas por situações ou experiências do passado.

Assim, à medida que a emoção é acolhida e transformada, novos significados começam a surgir e a pessoa compreende melhor o que sente, o que precisa, o que teme e o que deseja. E, com isso, nasce uma nova liberdade interna e consequente paz interior, porque já não está a lutar contra aquilo que está a sentir.

Para que isto seja possível, a terapia precisa de um espaço seguro e de uma relação empática, onde a pessoa se sinta acompanhada e não julgada. A minha postura é estar presente, disponível e atenta, criando condições para que emoções difíceis possam emergir sem que a pessoa volte a ficar sozinha com elas. A partir daí, trabalhamos com tarefas específicas que ajudam a ativar a emoção certa, no momento certo, para que ela possa ser revista, compreendida e atualizada.

O processo é profundo e transformador: chegamos à emoção que dói, colocamos palavras onde antes havia apenas tensão, confusão ou silêncio, e damos-lhe significado. Quando a pessoa está verdadeiramente nesse lugar emocional, abrimos caminho para sair dele, trazendo novas emoções que reescrevem a experiência interna. É assim que se passa, por exemplo, do medo para a segurança, da autocrítica para a autoaceitação, da raiva contida para a assertividade, do desespero para a esperança realista, da confusão para a clareza, da tristeza paralisante para a capacidade para avançar. Este trabalho é sustentado pela Terapia Focada nas Emoções, uma abordagem experiencial baseada em anos de investigação sobre mudança emocional.

A terapia torna-se então um caminho de reencontro e resgate da essência: aquilo que a pessoa sempre foi, mas que ficou escondido debaixo de camadas de dor, exigência ou sobrevivência emocional. O meu papel é acompanhar esse caminho com rigor, presença e humanidade, criando condições para que a mudança emocional aconteça de forma real e duradoura, permitindo que a pessoa viva com mais paz interior e liberdade.

(imagem criada com recurso a IA)

Conhecem “Casais Robustos”?

Numa época em que as relações enfrentam ritmos acelerados e múltiplas exigências, o que distingue os casais emocionalmente resilientes?

Tal como nas fotografias que partilho (a primeira tirada pela Luísa Gonçalves da Costa e a segunda tirada por mim), há dias cheios de sol e outros de tempestade. Casais robustos são aqueles que, mesmo nos dias difíceis, não deixam que o mau tempo se instale para sempre no seu relacionamento. Enfrentam as tempestades lado a lado, com segurança e confiança de que o sol há de voltar (porque, na verdade, o “boletim meteorológico” da sua relação costuma apresentar céu limpo e brisa fresca).

Curiosamente, “Casais Robustos” também é o nome de uma aldeia do distrito de Santarém localizada numa encosta da Serra de Aire, pertencente à freguesia de Moitas Venda, Município de Alcanena e é parte integrante do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (para os mais curiosos, conheçam a sua origem em https://pt.wikipedia.org/wiki/Casais_Robustos). Ao passar por lá (só fotografámos à saída…), lembrei-me de casais robustos que conheço, pessoal e profissionalmente, e do esforço diário que fazem para o ser.

Mas afinal, o que é ser um casal robusto?

É ter um vínculo seguro, ou seja, aproveitar os momentos de bonança e, ao mesmo tempo, aguentar as tempestades sem abandonar o barco. É respeitar as diferenças, ficar um ao lado do outro mesmo quando há algum distanciamento e, acima de tudo, garantir que não se instala o desligamento emocional. Quando sentimos que o outro nos ama e nos valoriza, conseguimos atravessar qualquer tempestade.

No fundo, todos procuramos o mesmo: sentir-nos amados pelo que somos e reconhecidos pelo que fazemos. Quando isso falha, erguemos barreiras e recorremos a reações de autoproteção (afastamo-nos, reagimos em excesso ou ficamos sem ação) para não sentirmos rejeição ou abandono. No entanto, ao fecharmo-nos, cortamos precisamente a conexão de que mais precisamos.

Casais próximos e conectados emocionalmente são aqueles que compreendem os medos e as necessidades um do outro e procuram atendê-las. Dizer “preciso de atenção”, “preciso de espaço” ou “preciso de sentir segurança” é essencial e, quando estas necessidades são atendidas, o casal permanece próximo e seguro. Contrariamente, quando não são atendidas, surgem os comportamentos de protesto (como queixas, críticas, silêncios), que são sinais claros de pedidos não ouvidos. Esta ligação constrói-se no dia-a-dia, na forma como falam, como se comportam e até na forma como pensam um no outro.

Muitas das nossas necessidades emocionais de adultos têm origem na forma como fomos cuidados na infância. A teoria da vinculação mostra que, se crescemos a acreditar que emoções eram fraqueza ou que tínhamos de enfrentar dificuldades sozinhos, é provável que, em adultos, evitemos falar sobre o que sentimos. Fechamo-nos como defesa, mas o outro pode interpretar isso como desinteresse ou afastamento. Pelo contrário, quem cresceu a sentir-se ouvido e protegido aprende a procurar o outro em situações difíceis (para falar, partilhar, pedir presença). Porém, quando esta procura se torna intensa, o outro pode sentir-se invadido e acabar por recuar, deixando-nos com sentimentos de rejeição ou incompreensão.

Casais robustos não são casais sem conflitos. São aqueles que acreditam que, mesmo nos momentos difíceis, o outro vai estar lá para responder às suas necessidades. Mesmo que haja distância ou desencontros, confiam que vão reencontrar o caminho. E, quando falham, conseguem pedir desculpa, reparar e reconstruir a ligação. Ser casal robusto não é viver sem tempestades, mas ter a certeza de que, juntos, conseguem atravessá-las.

De que forma os chatbots “emocionalmente inteligentes” poderão desencadear uma nova crise de saúde mental?

A fronteira entre a ligação emocional humana e a ilusão digital está a tornar-se cada vez mais ténue. Que implicações isto terá na saúde mental coletiva?

“The result is chatbots that not only speak well but also feel human. They mirror the user’s tone, offer validation, and provide comfort without fatigue, judgment, or distraction. Unlike humans, they are always available. And people are falling for them. Media reports suggest that people are forming deep emotional attachments to these systems, with some even describing their experiences as love.”

Tenho vindo a ler e a refletir sobre o impacto da inteligência artificial na construção de relações humanas saudáveis e duradouras. Recentemente li um artigo muito interessante sobre “artificial intimacy” e que mostra como os jovens (e todos nós) estamos a reinventar a forma como vivemos e estabelecemos vínculos.

A tecnologia avança e permite o aparecimento de chatbots capazes de “entender” e “validar” sentimentos, sempre prontos a responder, sem julgar nem recusar. Parece ideal, certo? Mas não é!

O conforto digital mascara muitas vezes o que é essencial para qualquer relação humana: lidar com a frustração, com as fases menos boas, com a ambiguidade e a incerteza. Estes momentos são fundamentais para crescermos, aprendermos a aceitar, a gerir e a evoluir juntos.

Vejo com preocupação que muitos jovens (e também adultos) estão a perder a capacidade de enfrentar a rejeição ou o desconforto nas suas relações reais. Se deixarmos que “relacionamentos perfeitos”, instantâneos e sempre positivos, definidos por IA, sejam a referência, então corremos o risco de enfraquecer competências fundamentais como a resiliência e a empatia.

Reconheço e aceito (e utilizo) as potencialidades e vantagens da IA, mas esta não substitui o valor insubstituível dos altos e baixos dos relacionamentos genuínos e a experiência, por vezes de sofrimento, necessárias ao crescimento. A capacidade de questionar, refletir, decidir e aceitar o que sentimos é essencial para o desenvolvimento socioemocional. O sentido crítico, a capacidade de conexão, a tolerância, são competências únicas e exclusivamente humanas e nunca poderão ser automatizadas.

Partilho o link do texto completo para quem quiser aprofundar. Numa era digital como a que vivemos, é urgente continuar a pensar e a aprofundar conhecimento e experiência na construção de relacionamentos genuínos, saudáveis e duradouros. Afinal, a essência humana nunca poderá ser substituída (ainda que possa ser “espelhada” pelos “bots”).

https://www.afterbabel.com/p/artificial-intimacy?r=56i80k&utm_campaign=post&utm_medium=web&showWelcomeOnShare=false

Em busca da Felicidade (1) – “A Felicidade é algo que se multiplica quando se divide”

Fui desafiada a ir à Escola Básica e Secundária de Ermesinde fazer uma palestra sobre felicidade e bem-estar, dirigida a alunos de 12º ano. Foi com grande alegria que, ao entrar na escola, dei de caras com uma grande faixa que dizia “A felicidade é algo que se multiplica quando se divide”.

Vivemos numa era em que a informação se propaga a uma velocidade incrível, “torna-se viral”! É impressionante como tudo o que é mau se espalha depressa. É impressionante como os meios de comunicação dão mais facilmente notícia daquilo que é desgraça, do que daquilo que corre bem. É impressionante como é isso que capta mais facilmente as audiências (aparentemente).

Há uns tempos, ao percorrer uma conhecida página online de um canal televisivo de notícias português (que não o CM!) deparei-me com o facto de as primeiras notícias em destaque serem todas negativas (sobre guerras, desgraças climáticas, corrupção, troca de insultos entre políticos, violência ou outros crimes…). Foi preciso percorrer 16 títulos de notícias até chegar a um cujo conteúdo era pela positiva… Só à décima sétima é que veio uma notícia de algo positivo… Felizmente, hoje o exercício não foi tão deprimente, pois estamos numa altura em que é necessário informar os portugueses de assuntos importantes, como sobre a entrega da declaração de IRS ou sobre os candidatos dos vários partidos políticos para as listas das próximas eleições legislativas (apenas informar, sem escrutinar…), pelo que há todo um conjunto de títulos de pendor mais neutro, se quisermos (é claro que podemos sentir algo negativo ao perceber que a devolução do IRS não vai ser como esperávamos, ou ao perceber que determinado nome proposto por determinado partido traz uma data de complicações e de questões eticamente ou moralmente reprováveis…).

O que quero dizer com isto é que, como as emoções contagiam, os meios de comunicação social têm um impacto incrivelmente grande no bem-estar do público. Ouço constantemente coisas como “o mundo está doente”, “esta nova geração está perdida”, “o futuro é sombrio”, “é só desgraças”, “ninguém se preocupa com o próximo”, “vai-se andando”, “tudo na mesma”… E podia ficar aqui infinitamente, “coitadinhos”…

Mas toda a gente procura o mesmo. Perguntei aos jovens com quem fui refletir sobre felicidade o que queriam ser como adultos, que tipo de adultos gostariam de ser? E foram respondendo: quero ser bem sucedido, ter uma vida boa, ser feliz; quero ser estável, “ter saúde mental”, ter amigos e família por perto… Quem não?

E o que posso “tomar” para ser feliz? Decisões.

  • Posso decidir que conteúdos ler/ver, escolhendo aqueles que me acrescentam, que me fazem sentir bem, que me fazem crescer, que me dão energia e motivação;
  • Posso decidir estar presencialmente presente com as pessoas de quem mais gosto, sem ecrãs a distrair;
  • Posso decidir aproveitar as coisas boas da vida, como ir até praia ou andar de bicicleta;
  • Posso decidir empenhar-me mais para atingir os meus objetivos;
  • Posso decidir investir tempo em coisas que me fazem bem à saúde, como fazer exercício físico ou uma dieta saudável;
  • Posso decidir ir votar, para contribuir para a escolha dos governantes que considero serem mais capazes de liderar os destinos do nosso país;
  • Posso decidir não dar tempo de antena a personalidades que só propagam a maledicência;
  • Posso decidir não partilhar conteúdos digitais que desinformam ou induzem em erro;
  • Posso decidir dedicar uma parte do meu tempo a ajudar alguém;
  • Posso decidir contribuir para o bem-estar dos que me estão mais próximos…

E as decisões implicam escolhas e mudanças.

A felicidade não é um estado constante. Assenta numa base evolutiva, pelo que é importante irmos definindo metas e objetivos que nos possam orientar nesse caminho, com altos e baixos, avanços e recuos. É então importante que haja um equilíbrio entre o prazer imediato e um prazer mais a médio/longo prazo, inerente ao significado e ao propósito que procuramos. O prazer imediato é importante e ajuda a motivar e a seguir em frente, mas não chega por si só. É importante apreciar o caminho até chegarmos à meta, ao objetivo, construir tendo em vista um bem maior, valorizar o processo e não apenas o resultado. Assim, é então fundamental diversificarmos as fontes de prazer e satisfação, ora mais imediatas, ora mais a médio/longo prazo, sendo crucial, neste último caso, gerir a frustração e saber esperar. Ser feliz é ainda contribuir para o bem-estar dos outros e da comunidade, porque a qualidade das nossas relações dita a nossa qualidade de vida!

E a mudança tem de partir de dentro de cada um de nós!

“You make me feel…”

Sobre a música “(You make me feel like) A Natural Woman, de Aretha Franklin

Esta música icónica, cantada pela rainha do soul, reflete um dos pilares fundamentais de um relacionamento saudável: a capacidade de sermos nós mesmos ao lado de alguém, sem máscaras ou pretensões, e de nos podermos apoiar nessa pessoa.

É tão bonito ouvir que a música toca em pontos tão importantes como:
1. Autenticidade: A capacidade de ser quem realmente somos junto ao nosso par.
2. Reconhecimento: A gratidão expressa ao outro pelo seu papel positivo na nossa vida.
3. Transformação positiva: Como um amor verdadeiro pode ajudar-nos a florescer e a sentirmo-nos mais conectados com a nossa própria natureza.
4. Segurança emocional: O sentimento de conforto e de pertença que um relacionamento saudável proporciona.

A mensagem da letra desta música (engrandecida pela melodia em si) pode ser uma ode aos relacionamentos duradouros, refletindo a importância da capacidade de nos sentirmos aceites e valorizados pelo que realmente somos, criando um ambiente de apoio mútuo onde ambos podemos crescer individualmente e como casal. A música começa por descrever um estado de espírito anterior ao amor, um sentimento de estar perdida, sem direção. Entretanto, a descoberta do amor permite um despertar, uma renovação. Não é apenas sobre sentir-se amada, mas sobre como esse amor permite que a pessoa se sinta genuinamente ela mesma, uma “mulher natural”. Esta é uma das mais belas expressões do que um amor verdadeiro pode fazer: permitir-nos ser nós próprios e livres nessa expressão de autenticidade.

Tal como diz a letra, não é sobre o que “tu me fazes ser”, mas sim como “tu me fazes sentir”. Ou seja, a essência da pessoa já existe e o amor apenas ajuda a redescobri-la e a voltar a conectar-se com ela.

O amor verdadeiro e comprometido permite crescimento pessoal e autodescoberta, é um amor que liberta e fortalece, em vez de nos fechar em nós próprios.

Esta música é uma celebração do amor!

As três entidades do Amor: cuidar do Eu, do Outro e do Relacionamento

A importância de cuidar de si próprio, do outro e do relacionamento é fundamental para a saúde emocional e para a longevidade do casal. Ao falar de relacionamentos, identificamos três entidades essenciais: a pessoa, o seu par e o relacionamento em si. Cada uma destas requer atenção e investimento para que a dinâmica amorosa se mantenha saudável e resistente às adversidades.

O primeiro passo é cuidar de si mesmo. Cada elemento do casal deve reconhecer as suas próprias necessidades emocionais e físicas, reconhecer as suas potencialidades e também os aspetos a melhorar, procurando crescimento pessoal e autocuidado. Para isto, é necessário desenvolver autoconhecimento que, não só melhora o bem-estar individual, como também fortalece a capacidade de contribuir para a relação.

Cuidar do outro implica estar atento às suas necessidades e sentimentos. O compromisso de ouvir, apoiar e validar as experiências do outro é fundamental e proporciona uma conexão mais profunda. É importante que cada um se sinta seguro para expressar as suas vulnerabilidades, se sinta amado e valorizado, sabendo que o outro está ali, disponível para escutar e para oferecer suporte.

Por último, cuidar do relacionamento como uma entidade própria envolve dedicar tempo e esforço para alimentar a conexão entre o casal através, por exemplo, de momentos de qualidade juntos, de comunicação aberta, da predisposição para resolver conflitos de maneira construtiva. É fundamental que ambas as pessoas se comprometam a zelar pela “saúde” do relacionamento, que pode ser comparado com um organismo humano, composto por um conjunto de sistemas interligados. Cada um desses sistemas — como a comunicação, a expressão de emoções e a resolução de conflitos — desempenha um papel essencial na manutenção do bem-estar do casal.

O compromisso mútuo em cuidar e investir nestas três áreas — em si mesmo, no outro e na relação — é o que permite que um casal resista às dificuldades. Assim como o corpo humano requer cuidados constantes para funcionar adequadamente, o relacionamento também precisa de atenção regular para crescer de forma saudável. Quando ambos os elementos do casal se dedicam a cuidar da sua própria saúde emocional e física, bem como a apoiar o bem-estar do outro, criam um ambiente propício ao crescimento e à felicidade mútua. Além disso, é importante que priorizem também o relacionamento e lhe dediquem tempo (tal como na carreira profissional, para se evoluir e crescer no relacionamento é preciso tempo, dedicação e aprendizagem; se não se faz este investimento e priorização, o relacionamento estagna ou até perde valor e significado).

Finalmente, é importante reconhecer que o tempo e o ritmo de cada um podem não coincidir. Às vezes é um que está mais disponível ou motivado para puxar pela relação, outras vezes é o outro. O importante é que ambos estejam dispostos a cuidar um do outro e também a permitir que o outro cuide deles. Esta reciprocidade é vital para fortalecer a segurança e os laços emocionais e para garantir que o relacionamento resista às adversidades. Assim, cada pessoa deve assumir a responsabilidade pela sua parte nesta equação e, ao cuidar ativamente destas três entidades, os casais constroem uma base sólida para um amor duradouro e significativo.  É nesta dedicação mútua que assenta a verdadeira essência dos relacionamentos: a capacidade de crescer juntos, de enfrentar desafios lado a lado e de celebrar cada pequena vitória com gratidão.

 

Conversas que curam: como discutir de forma construtiva

As pessoas são muito diferentes umas das outras. Muitas das pessoas importantes para nós têm formas diferentes de pensar, de comunicar, de reagir, de decidir, de lidar com o conflito, de lidar com o desafio, de mostrar preocupações, de perseguir os seus objetivos… E ao lembrarmos-nos disto percebemos porque é que é tão fácil surgirem desentendimentos, discussões ou conflitos, mesmo com as pessoas que nos são mais próximas e que mais amamos.

Perante a palavra conflito, é comum que as pessoas a associem a algo negativo, que gera discórdia, afastamento e sentimentos menos agradáveis. No entanto, nem todos os conflitos são prejudiciais. Na verdade, alguns podem mesmo trazer mudanças positivas, crescimento pessoal, descoberta de novas soluções e melhorias nos relacionamentos. Os conflitos são inevitáveis e até saudáveis, fazem parte das interações e das relações humanas e é a forma como são geridos e resolvidos que determina os seus resultados e impactos. Em vez de os evitar, é importante aprender a lidar com os conflitos de forma construtiva.

Assim, tendo em conta uma relação de casal, não é expectável que sejam imunes e ausentes de conflitos, tensões, divergências. Todos os casais discutem! Há casais que têm um elevado grau de conflito, que se deparam com grandes divergências (quer nas pequenas, quer nas grandes questões), que podem até ter um estilo de comunicação mais “aceso”, mas não é isto que vai ditar uma eventual rutura ou separação. Assim como há casais que, aparentemente, estão de acordo em tudo, raramente discutem, parecem viver numa sintonia e harmonia “ensurdecedoras”. E quando nos deparamos com um conflito, normalmente pensamos e pressionamos-nos para encontrar uma solução. Mas e quando não há uma solução possível? Na verdade, muitos dos problemas que geram conflito num casal não têm uma solução e acabam por permanecer no tempo. Por exemplo, questões relacionadas com incompatibilidades com as famílias de origem um do outro, desejo de ter ou não ter (mais) filhos, características individuais mais vincadas, por vezes provenientes da própria história de vida de cada um, são algumas situações que podem gerar problemas e conflitos no casal, não sendo possível encontrar uma resolução consensual (uma situação “ganha-ganha”, pois um dos elementos do casal “ganha” e o outro “perde”). Nestas situações, é então fundamental gerir o conflito/problema, e não resolvê-lo (porque não tem solução).

Alguns dos sinais que indicam que estamos a gerir uma discussão ou conflito de forma negativa, não funcional, e tendencialmente destrutiva são:

  • Interações e sentimentos predominantemente negativos, contribuindo para um aumento da escalada de tensão e para a personificação do problema, adotando posturas de acusação e menos centradas no problema. Estas posturas levam um ou ambos os membros do casal a apresentar, por exemplo, elevação no tom de voz (e outras ativações fisiológicas, como a aceleração do batimento cardíaco), desrespeito, desconsideração pelo outro, falta de compreensão das necessidades e sentimentos do outro, falta de empatia, desenvolvendo uma visão negativa do outro e do próprio relacionamento.
  • Elevado criticismo e desvalorização do outro, realçando apenas aquilo que o outro tem de negativo, através por exemplo de insultos, críticas pessoais, ataques à dignidade, o que proporciona uma perspetiva redutora e negativa do outro, em vez de se forcar na resolução do problema.
  • Atitude defensiva, negando qualquer tipo de responsabilidade na situação e centrando culpas no outro.
  • Desprezo, adotando uma postura de superioridade ou de menosprezo em relação ao outro (sarcasmo, insultos, inferiorizar o outro).
  • Desistência ou desligamento emocional, na medida em que se verifica ausência de qualquer tipo de afeto positivo durante o conflito, ignorando as tentativas de aproximação e de conexão emocional apresentadas pelo outro (“virar costas”).
  • Incapacidade para travar a escalada de tensão, apresentando dificuldade na regulação da impulsividade/reatividade, quer em si próprio, quer no outro.
  • Incapacidade para aceitar a influência do outro.

É importante discutir “bem”, com qualidade, de maneira que o conflito tenha um carácter construtivo e funcional, ou seja, que proporcione crescimento individual e/ou em casal, que permita evoluir e não destruir o casal.

Os casais mais felizes e funcionais abordam os problemas de forma calma e respeitosa e têm em conta a dimensão emocional, não ignorando as emoções mais difíceis e dolorosas.

Perante questões difíceis ou problemas, algumas estratégias que ajudam os casais a discutir com qualidade e de forma mais construtiva são:

  • Escolher o momento e o local adequados para abordar o assunto, assegurando que ambos se sentem disponíveis, seguros e à vontade para expressar e explorar as suas emoções mais profundas, as suas necessidades e preocupações, com calma e sem medo de críticas ou julgamentos.
  • Comunicar de forma clara e assertiva, falando na primeira pessoa (“eu sinto…”, “eu preciso de…”), transmitindo assim o que sente e quais as suas necessidades, evitando um tom de crítica e de julgamento em relação ao outro.
  • Escutar o outro e validar os seus sentimentos, adotando uma postura de “bom ouvinte” (mesmo que discorde) e deixando de lado a sua própria agenda (as suas necessidades, as suas emoções), verificando se está a receber bem a mensagem que lhe está a ser transmitida, por exemplo, reformulando aquilo que ouviu e perguntando se foi isso (preocupações, medos, anseios) que o outro quis transmitir.
  • Deixar-se influenciar pelo outro, evitando a rigidez (em que cada um fica na sua posição e mantém os mesmos argumentos) e mantendo o respeito um pelo outro, aceitando as diferenças de cada um e confiando que cada um quer o melhor para o outro, separando o problema da essência da pessoa.
  • Prevenir a negatividade na interação, evitando a escalada de tensão, procurando comunicar de forma consistentemente positiva.
  • Ter a capacidade de reparar a interação, diminuindo a escalada de tensão, por exemplo pedindo desculpa por algo que tenha dito de forma menos adequada, reformulando, procurando regular-se emocionalmente para que possam tentar novamente discutir o problema e lembrando o verdadeiro sentido da discussão (que não é para magoar o outro).

As discussões e os problemas no casal, sendo geridas de forma mais construtiva, proporcionam maior autoconhecimento (individual e do casal – sobre as suas preocupações, os seus medos, os seus sonhos, os seus valores), podendo surgir novos entendimentos, novas estratégias para gerir situações mais difíceis e, acima de tudo, maior intimidade e proximidade. Isto é possível, não só desenvolvendo afetos positivos durante os conflitos, mas também fora deles, na relação em geral. Na verdade, tal como defende o psicólogo John Gottman, é fundamental que o casal vá contribuindo para uma “poupança emocional” para que, em momentos mais difíceis, possa recorrer às suas reservas, sendo de evitar que o seu saldo de afetos positivos fique “a zeros”.

Concluindo, é bom discutir, mas com qualidade! E a terapia de casal pode ser uma ferramenta valiosa para superar desafios e fortalecer o vínculo, sendo um tempo e um espaço do e para o casal, onde podem ser discutidas e trabalhadas estratégias que contribuam para o seu crescimento. Finalmente, há um novo espaço para uma “Pausa para Sentir”, onde os casais poderão usufruir de acompanhamento especializado e personalizado, num ambiente acolhedor e com uma equipa de profissionais dedicada! Venham conhecer-nos!

 

(Texto escrito para o Blog do “Pausa para Sentir”, publicado a 25 Maio 2024 – https://www.pausaparasentir.pt/blog/conversas-que-curam-como-discutir-de-forma-construtiva)

Ser ou não ser vulnerável?

Todos os dias trabalho com vulnerabilidade; com a minha e com a das pessoas que me procuram profissionalmente.

Tal como escreveu Carlos Tê e cantou Rui Veloso, “A tua pequena dor / Quase nem se quer te dói / É só um ligeiro ardor / Que não mata / Mas que mói.”

Quantas vezes não vamos olhando para as nossas “dores” desta forma? “É uma dor pequenina / Quase como se não fosse”… E vamos interiorizando que não é nada de especial e que há tanta gente com problemas piores… E assim vamos bloqueando as nossas emoções e guardando a nossa “dor” só para nós – e a música continua: “Não exponhas essa dor / É preciosa é só tua / Não a mostres tem pudor / É um lado oculto da lua.”

Muitas vezes partilham comigo que não gostam de mostrar vulnerabilidade, ou porque é um sinal de fraqueza, ou porque se sentem demasiado expostos. A vulnerabilidade é mesmo isto, aquilo que de mais puro temos em nós, as nossas emoções, os nossos medos, as nossas preocupações, os nossos desejos, os nossos sonhos. Estamos vulneráveis quando estamos despojados de todas as nossas defesas e nos abrimos completamente aos outros e a nós mesmos. E é preciso coragem para nos encararmos a nós próprios e também aos outros e às circunstâncias que a vida nos traz. Isto é sinal de fraqueza?

Ser vulnerável não é ser fraco, é ser puro e honesto comigo mesmo e com os outros. A melhor forma de lidarmos com a vulnerabilidade é percebermos e conhecermos o lugar onde estamos emocionalmente, o que estamos realmente a sentir e para onde queremos ir. Como as emoções são informação, elas dizem-nos o que é importante para nós e do que é que precisamos. A tristeza procura consolo/conforto quando há uma perda. O medo/ansiedade procura segurança quando há perigo. A raiva procura segurança (estabelecimento de limites) ou assertividade quando a pessoa se sente atacada ou posta em causa. A culpa procura reparar os erros/danos ou pedir desculpa quando há alguém magoado.

Ao sermos vulneráveis escolhemos a verdade, escolhemos olhar no fundo do ser (de nós próprios e dos outros), escolhemos relações de proximidade e de confiança.

Eu sou a mãe… E quando os filhos vão para casa do pai?

Após uma separação/divórcio existe uma fase de adaptação e de (re)descoberta para todos os elementos envolvidos (pais e filhos).

Muitas mães partilham a sua dificuldade em estar sozinhas, sem os filhos, quando estes ficam em casa do pai. Nessas alturas, principalmente numa fase inicial pós-divórcio, experimentam sentimentos de solidão, frustração, revolta, injustiça, entre outros, acabando por não saber passar esse tempo sozinhas (tempo esse que muitas vezes parece interminável…), permanecendo num grande sofrimento.

Nessas alturas em que as mães estão sem os filhos, e de forma a poderem passar melhor esse tempo:

1. Evitem o autocriticismo e a auto-culpabilização: a separação/divórcio não é, por si só, traumatizante para as crianças. Aquilo que pode marcar mais negativamente o desenvolvimento e o bem-estar das crianças são as dinâmicas que existiam antes do divórcio e após o divórcio, sendo fundamental que, mesmo separados, os pais consigam manter uma relação cordial e de cooperação. O mais importante é os filhos sentirem os pais bem e disponíveis para eles.

2. Aprendam a gostar e a aproveitar o “me time: há muitas coisas que nunca teriam a oportunidade de fazer com a presença dos filhos. Façam planos, identifiquem coisas que gostariam (e precisam) de fazer e que podem concretizá-las no tempo em que os filhos não estão.

3. Não se culpabilizem, gostar do “me time” não é sinónimo de egoísmo: só porque gostam de estar sem os seus filhos e conseguem ser felizes nesses momentos, não significa que sejam menos boas mães. É muito importante que as mães se sintam bem, que façam o que gostam e se sintam realizadas. Só assim poderão ter disponibilidade psicológica e emocional para lidar com os desafios da educação dos filhos e de uma coparentalidade saudável. E quando os filhos veem os pais felizes, eles próprios são mais felizes e adaptados.

4. Sejam flexíveis na gestão de agendas: por vezes surgem imprevistos ou situações/oportunidades de última hora, pelo que quando o pai pede para que a mãe fique com os filhos, mesmo não sendo “a sua vez”, sejam flexíveis. Assim, quando for a vez das mães para pedir essa alteração, poderão ter mais facilmente essa disponibilidade por parte dos pais (ou não… mas nesses momentos há que lembrar que é o interesse e o bem-estar das crianças que deve falar mais alto, além de que nada deve impedir de ter a atitude certa).

5. Aproveitem o tempo em que têm os filhos em casa: juntos ou separados, há pais que têm pouco tempo para estar com os filhos (por razões profissionais, por exemplo). O mais importante é aproveitar o tempo que têm com eles, em vez de se lamentarem e de ficarem a antecipar a ansiedade e o sofrimento que poderão sentir quando forem para casa do pai. Além disso, as relações afetivas próximas e positivas entre pais e filhos constroem-se numa base diária, através das rotinas e das mais pequenas coisas, pelo que nunca desperdicem a oportunidade de proporcionar experiências e memórias positivas aos filhos.

6. Lembrem-se que o pai é importante para os filhos e que, juntos, podem trabalhar em equipa: independentemente do tipo de relação e de proximidade que os filhos tinham com o pai antes da separação/divórcio, todos os filhos merecem e precisam de ter o carinho e o acompanhamento de ambos os pais. Quanto melhor os filhos estiverem com o pai, mais descansada e confiante poderá ficar a mãe, podendo também aproveitar melhor o seu tempo e investir em si mesma, no seu bem-estar.