Há fenómenos que só percebemos verdadeiramente quando começamos a ver o seu eco na vida adulta, não apenas na identidade individual, mas também na vida a dois. O “passenger mode” é um deles.
Foi ao ler o artigo The Teen-Disengagement Crisis (The Atlantic, 2025) que conheci a expressão “passenger mode”, que me ficou gravada e deu nome a muito do que vejo hoje em dia: adolescentes que deixam de se ver como protagonistas da própria aprendizagem e passam a ocupar um lugar passivo, quase anestesiado, no seu percurso escolar e no seu desenvolvimento. Deixam-se ir no lugar do passageiro…
Não é um fenómeno novo, mas está a tornar-se demasiado frequente para ser ignorado. E, na verdade, no meu trabalho vejo o que acontece quando este desligamento não é travado a tempo.
Faço aqui uma reflexão dividida em cinco partes: o que está a acontecer, o reflexo disso que vejo na minha prática clínica, o que potencia este fenómeno, o que falta aos adolescentes de hoje e o que podemos fazer.
1. O silêncio que se instala
O artigo descreve algo que muitos professores, psicólogos e pais reconhecem: por volta do 7.º ou 8.º ano, o interesse pela aprendizagem cai abruptamente. Não é apenas desmotivação escolar, é uma espécie de retração existencial. Uma sensação de que “não vale a pena”, “não faz diferença”, “não sou bom o suficiente”.
Jonathan Haidt tem vindo a alertar para isto há anos. A combinação de hiperexposição digital, redução da autonomia real e aumento da ansiedade criou uma geração que vive mais no ecrã do que no mundo, mais na comparação do que na experiência, mais no medo do erro do que na curiosidade. Este psiquiatra e autor do livro A Geração Ansiosa refere mesmo que a ansiedade é o preço a pagar por uma infância vivida sem riscos (dentro daquilo que é esperado e saudável que uma criança experiencie) e que é fundamental preparar a criança para fazer o seu caminho, e não preparar o caminho para a criança o fazer.
Em Portugal, os dados confirmam esta tendência:
- O relatório PISA 2022, referenciado no “Monitor da Educação e da Formação de 2025”, mostrou que Portugal teve uma das maiores quedas de sempre em literacia matemática e científica, acompanhada por um aumento significativo de ansiedade escolar.
- A OCDE, no estudo Child, Adolescent and Youth Mental Health in the 21st Century, identificou que Portugal é um dos países onde a pressão académica e o mal-estar emocional dos adolescentes mais se destacam. Entre os dados mais gritantes está a evolução da percentagem de jovens de 15 anos que relatam sentimentos de tristeza ou desesperança.
- O estudo Health Behaviour in School-aged Children (2022) revelou que os adolescentes portugueses estão entre os que mais referem sentir-se cansados, desmotivados e emocionalmente sobrecarregados.
Não é difícil perceber porque é que tantos entram em “passenger mode”.
2. O reflexo do “passenger mode” que vejo na minha prática clínica
- Os jovens adultos têm muita dificuldade em tomar decisões, não por falta de inteligência, mas por falta de prática. Cresceram a cumprir, não a decidir, o que faz com que, entrando na vida adulta, vivam com muita ansiedade e angústia os momentos em que têm de fazer escolhas, tendo muito medo de errar. Ouço frequentemente frases como “tenho medo de tomar decisões”, “não sei o que quero”, “não quero falhar, por isso não tento”.
- Muitos adultos vivem em piloto automático, ou seja, até podem ser profissionalmente competentes, mas estão emocionalmente desligados, caindo no desânimo e na falta de propósito. Sabem fazer, mas não sabem porquê.
- As relações são marcadas por evitamento ou dependência. Os jovens não aprenderam a pedir, a negociar, a ajustar ou a reparar emocionalmente. Têm medo de se mostrar vulneráveis e não aprofundam verdadeiramente as ligações emocionais, ficando mais na superficialidade (“é mais seguro”). A psicóloga Esther Perel refere que a qualidade das nossas relações determina a nossa qualidade de vida. Fala de “inteligência relacional” e em como ninguém nasce com esta competência, tendo de ser treinada, construída, experimentada. Mas um adolescente em “passenger mode” não experimenta, cumpre ou deixa-se ir. E cumprir ou deixar-se ir não é o mesmo que viver.
- Casais que não sabem discutir sem se magoar, porque nunca aprenderam a tolerar desconforto, a sustentar um conflito ou a defender um ponto de vista sem medo de rejeição.
3. O que está na raiz do “passenger mode”?
Jonathan Haidt resume isto de forma simples “estamos a criar adolescentes seguros demais para arriscar e ansiosos demais para agir.”
Falta autonomia, não para fazerem o que quiserem, mas para terem espaço para decidir e para se responsabilizarem e lidarem com as consequências.
Falta propósito, não para serem os maiores e alimentarem a ânsia de TER mais, mas para darem sentido à sua vida, motivando-se para SER mais, tornando-se cada vez melhores pessoas, contribuindo para um mundo melhor.
Falta o gosto pelo desafio e pelo questionamento. A curiosidade é uma das competências que mais falta faz aos adolescentes de hoje. A curiosidade desenvolve pensamento crítico e resiliência e é um motor para a vida adulta, permite-nos avançar e evoluir.
5. E qual é o nosso papel? O que podemos fazer enquanto família, escola e sociedade?
Precisam de sentir autonomia, não como independência precoce descontrolada, mas como um espaço real para experimentar, testar limites, errar sem serem esmagados pela culpa ou pela vergonha. A autonomia não se ensina aos 18 anos, mas sim desde pequenos, nos momentos em que confiamos antes de controlar.
Precisam de ambientes onde a segurança emocional é real e não um “cliché”. Lugares onde o vínculo vale mais do que o desempenho, onde a relação vem antes da exigência. Como diz Jane Nelson, autora da disciplina positiva, “connect then correct”, pois a aprendizagem nasce da conexão, do encontro, e não do medo.
Precisam que falemos de futuro com abertura e flexibilidade, e não como um destino fechado e rígido. O futuro não é um lugar que fica no fundo do caminho, é um horizonte para o qual os adolescentes só querem navegar quando se sentem livres e sem medo de julgamentos e de crítica.
Precisam de silêncio, de pausa e até de tédio. Não diabolizando a tecnologia, que traz muitos benefícios, numa era em que a atenção dos adolescentes é roubada a cada segundo, o maior presente que lhes podemos dar é espaço mental, para que possam ouvir-se e descobrir-se a si próprios.
Precisam que valorizemos o processo e não apenas o resultado. E que bom que é usufruirmos do processo, valorizando as pequenas conquistas e aprendendo com o que corre menos bem.
E precisam de escolas que tenham tempo, equipas educativas e condições para ensinar e educar com sentido. Sem segurança emocional, não há aprendizagem efetiva.
Concluindo, o adolescente que hoje vive em “passenger mode” é o jovem adulto que amanhã tem medo de arriscar, evita decisões, duvida do seu valor, entra em relações com insegurança e sente que a vida “lhe acontece”.
É urgente devolver aos jovens a sensação de que são protagonistas da própria vida. A felicidade, como lembra Arthur Brooks, depende de agir e não de esperar que a vida aconteça. E o “passenger mode” é precisamente a perda desta ação.
O desconforto faz parte e é essencial para o crescimento emocional. Não é por acaso que se fala em “dores de crescimento”. Crescer dói, mas ficar preso e não crescer dói muito mais.









As pessoas são muito diferentes umas das outras. Muitas das pessoas importantes para nós têm formas diferentes de pensar, de comunicar, de reagir, de decidir, de lidar com o conflito, de lidar com o desafio, de mostrar preocupações, de perseguir os seus objetivos… E ao lembrarmos-nos disto percebemos porque é que é tão fácil surgirem desentendimentos, discussões ou conflitos, mesmo com as pessoas que nos são mais próximas e que mais amamos.